Praça da Batalha –  na origem do nome, acredita-se que esteja a sangrenta batalha entre os sarracenos de Almançor e os habitantes da cidade do Porto, que foram derrotados, o que ocasionou a destruição total desta cidade. Este acontecimento terá tido lugar no século X. Ao longo do século XIX, a Praça da Batalha desempenhou, também, um papel de grande relevo como espaço de encontro, lazer e ócio da população portuense da época. Já aqui se localizava naquele tempo o Teatro de S. João – o mais antigo e concorrido do Porto –, que teve um papel fundamental como local onde se realizavam actividades culturais, designadamente, peças de teatro, concertos musicais e espectáculos de dança, que diariamente deliciavam a população. A presença de grande número de hospedarias, casas de pasto e dos melhores hotéis da cidade, que aqui se localizavam, também contribuíram para o prestígio que este espaço alcançou na cidade do Porto, durante a centúria de oitocentos, atraindo os seus cidadãos quase assídua e diariamente.

Aqui se notabilizaram, ao longo do século XIX, dois cafés: Águia d’Ouro e Leão d’Ouro (anterior Comuna).

CAFÉ ÁGUIA D’OURO

Fundado em 27 de Janeiro de 1839, o Café Águia d‘Ouro localizava-se na Praça da Batalha (antigo Largo de Santo Ildefonso). Aguia-dOuro.2.16Esta data tão objetiva é-nos fundamentada por um anúncio publicado no jornal O Athleta, de 24 de janeiro de 1839, que chegou até aos nossos dias e que nos informa que “Domingo 27 do corrente mez de Janeiro, no Largo de Santo Ildefonso, se abre o novo café da Águia, ao gosto moderno, onde haverá diversas bebidas com bons serviços, e Neve na estação competente. Na mesma casa há todos
os dias Gelatina de mão de Vitella e raspa de
veado, própria para doentes e melhor para sãos. Foi seu proprietário, até Junho de 1904, Luís Ferreira de Carvalho que, nesse ano, o passou para os seus dois empregados: Alberto Joaquim e Manuel Ventura Vieira de Mesquita. Café Águia D'OuroEste café possuía uma “sala principal no rés-do-chão e hospedaria no primeiro andar”. Nesta sala, ao nível da rua, localizava-se o café com o seu bilhar. No primeiro piso a hospedaria era frequentada, diariamente, “pela mocidade estúrdia e folgazã que se reunia frequentemente em jantares e ceias animadíssimas”. Este café foi, sem dúvida, um dos principais pontos de encontro de todas as personalidades da literatura, da política e das artes da cidade do Porto da segunda metade do século XIX e primeira da centúria de novecentos. Camilo foi seu frequentador habitual, após o encerramento do Café Guichard. Nos anos 30 do século XX fecha as suas portas, de forma temporária, para renovação, em adequação ao movimento de remodelações, ocorrido, naquela década, em praticamente todos os cafés da cidade e reabre a 7 de Fevereiro de 1931 com nova fachada de vidro e pórtico com o símbolo do estabelecimento (a águia).

Aguia-dOuro.2

O café, no piso térreo, manteve-se, mas a hospedaria do primeiro piso deu lugar a um salão de bilhares e outros jogos – os chamados jogos lícitos. O Teatro e Cinema mantiveram-se no segundo piso do edifício. Ao nível da fachada, em questões formais, esta manteve os três pisos, alterando-se, todavia, a sua plasticidade. O primeiro dos dois, a encimar o café, passou a ser detentor de quatro vãos de iluminação envidraçados e com molduras preciosamente ornamentadas e o segundo manteve as seis janelas de sacada, mas desta vez em serliana, com molduras ornamentadas. A encimar toda a fachada encontrava-se um placar publicitário com a expressão AGUIA D’OURO CINEMA, mais tarde substituído por CINE AGUIA.Aguia-dOuro.26

Por aqui passou todo o portuense com nome na política, na literatura, no jornalismo e na arte, tendo, nas mesas deste café, agitado as mais graves e complicadas questões que nesses tempos preocupara a alma nacional. Foi aqui que “[…] os Passos planearam o movimento da Patuleia […]. Foi também n’uma d’aquellas mesas que se pensou e originou o Club Patriota, fomentador do movimento de 1868, conhecido pelo nome de Janeirinha, ultima palpitação d’esse grande coração do Norte que se chama Porto”. GIRÃO, Júlio Ferreira – O Professor António Girão. Porto, O Tripeiro, série II, n.º9, ano I, 1 de maio de 1919, p. 171.

 Café águia dóuro Moov-Hotel.15Após quase século e meio de actividade, o Café Águia d’Ouro acabou por encerrar as suas portas em 1978, tendo, todo o edifício, sido comprado pela empresa Solverde. Em Agosto de 2006 a Solverde põem o imóvel à venda e, mais recentemente, toda a fachada, incluindo o local onde se localizou o café, foi restaurada e totalmente renovada, para acolher um hotel, que abriu ao público em 2011.

CAFÉ LEÃO D’OURO

A história do Café Leão d’Ouro em 1857 inicia com o nome de Comuna. café leão d'ouro 1915A origem deste nome deve-se ao facto de ter sido “local de encontro de liberais, republicanos e socialistas”, sendo, por este motivo, frequentemente vigiado pela polícia, que acabou por ordenar o seu encerramento no ano de 1889. Por incentivo dos seus clientes habituais, o estabelecimento acaba por voltar a abrir nesse mesmo ano, sob a gerência de Alberto Joaquim, tendo, para isso, de alterar o seu nome. Passou então a chamar-se Café Leão d’Ouro. Entre 1857 e 1889, reuniram os liberais da época que, em conversas despreocupadas, discutiam e preparavam afincadas conspirações. Esta realidade levava a que a polícia, por ali deambulasse, quase diariamente.café leão d'ouro 1930 No sentido de camuflar os idealismos revolucionários que proliferavam neste estabelecimento, o mesmo foi obrigado a alterar o seu nome para Leão d’Ouro, aquando da sua reabertura, ainda no mesmo ano de 1889. A partir deste segundo período passa a ser frequentado por figuras do Teatro e das Artes Plásticas. Após a segunda interrupção, ocorrida entre 1926 e 1934 para remodelações, passará a ser frequentado por personalidades de índole social e profissional diversificada. Neste período de meados da primeira metade do século XX as tertúlias estético-plásticas, realizadas naquele café, serviram de ponto de partida para a publicação de diversos artigos em revistas literárias e artísticas que naquela época proliferavam pela cidade. Foi nas mesas deste café que se desenhou a iniciativa “da formação dum Teatro Experimental, iniciativa que frutificou no TEP e deu novos rumos ao nosso Teatro. Dada a proximidade do Teatro de S.João, foi frequentado, inclusivamente, já com o nome de Leão d’Ouro, por “inúmeros actores em digressão pelo norte: Beatriz Costa, Amélia Rey Colaço, Teresa Gomes, António Silva, Raul de Carvalho, Ribeirinho e muitos, muitos outros”. Acabou por encerrar de forma definitiva, por meados do início da segunda metade do século XX.

CAFÉ CHAVE D’OURO

café chave d'ouro

Já em pleno século XX notabilizar-se-á, neste núcleo urbano de cafés da Batalha e suas imediações, o Café Chave d’Ouro.

Este café abre portas em 1920 em plena Praça da Batalha. Constituído por piso térreo e primeiro andar, tinha, ao nível do rés-do-chão, o café propriamente dito, e no primeiro piso localizava-se o salão de bilhar. Por meados da década de trinta da centúria de novecentos seguirá o mesmo exemplo de todos os seus congéneres, efectuando uma total remodelação da sua fachada.café chave d'ouro 1Segundo nos informa Marina Dias, “entre a sua clientela contavam-se […] muitos empregados do comércio”. Em 10 de maio de 1958, procedeu-se, aqui, à “reunião de Humberto Delgado com jornalistas nacionais e estrangeiros. Esta realidade ainda se mantém na actualidade, uma vez que este café ainda se conserva activo nos dias de hoje, apesar de muito adulterado quanto à sua estrutura formal original. Na fachada ainda é perceptível a indicação do salão de bilhares no primeiro piso, mas o mesmo já não se encontra em actividade.

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