O S. JOÃO NO PORTO

“A festa mais importante do Porto é a noite de S. João, a celebração do solstício de Verão. Esta é uma festividade rural por excelência, que se realiza na noite de 23 de Junho em inúmeras freguesias do Norte de Portugal. No entanto o Porto é o principal centro destas festividades. Nesse dia, a cidade regressa às suas raízes rurais e regressa à sua verdadeira natureza. As ilhas são o centro destas festividades”.

O S. João na Idade Média marcava o inicio do ano comercial.
No Porto era usado para a tomada das grandes decisões.
O mais antigo livro de vereações do Porto (referente ao ano de 1390/91), abre com uma reunião no dia de S. João. O dia 24 de Junho de 1390 é mesmo o dia mais antigo que há memória com uma referencia ao S. João. No dia de S. João era sempre escolhido pela vereação para a tomada das grandes decisões e a Câmara reunia no Largo de S. Domingos, nas arcadas do Convento.
Mas apesar disso o S. João nunca foi o Santo Padroeiro da cidade e a propria devoção ao santo não tem muitos referenciais na cidade.
Apesar disso a cidade tem dois templos e uma freguesia dedicada ao S. João da Foz e S. S. João Novo. (já agora o Santo António tem dois templos, Congregados e Antas e duas capelas Carregal e Contumil e uma paróquia. O S. Pedro tem um templo e uma freguesia (Miragaia), uma capela e uma paróquia (Azevedo)
De todas as festas populares, o S. João é sem sombra de dúvida aquela que mais está entranhada no espírito tripeiro.
Numa primeira análise não se percebe muito bem como é que uma figura tão austera e mística como foi o S. João Baptista que viveu a maior parte da sua vida no deserto comendo raízes de árvores e gafanhotos, apareça como patrono de uma celebração galhofeira. Não só em Portugal como também no resto da Europa (S. Joan, Jean, John, Iván, Sean.).
Ao certo ninguém sabe quando começou o S. João entre nós. Mas ninguém duvida que os festejos andem profundamente ligados ao solstício de Verão a mais importante data para todos os povos da terra desde a mais remota antiguidade. Uma celebração antiga que tinha como motivos principais o sol, o fogo e as colheitas. Uma das mais vulgares tradições são-joaninas, consiste em fazer subir balões. E estes sobem no ar como sóis iluminados. Não é mais do que o antigo culto ao deus Sol.
Não é difícil de acreditar que os ritos, cerimónias e alegrias passassem para a tradição cristã.
O etnólogo Fernando Pires de Lima dizia que uma das decisões mais inteligentes do Cristianismo foi ter dominado e cristianizado as grandes festividades pagãs.

A FESTA TRIPEIRA
A mais antiga alusão que se conhece ao S. João tripeiro ficou a dever-se à pena de Fernão Lopes, enquanto cronista do reino, ao fazer referência no Século XIV, que quando reinava D. Fernando, a determinado acontecimento que terá ocorrido no Porto, “no meio de grande animação e desabrido, sucede que isto se passou exactamente na véspera de S. João “dia em que os moradores daquela cidade costumam fazer grande festança”.
A tradição das orvalhadas anda ligada à fecundidade. Raparigas que no S. João se rebolassem na erva humedecida pelo orvalho da noite, ficavam aptas a conceber mais facilmente. Em certos escritos a orvalhada era tida como a saliva ou o sémen dos deuses.

Garrett dizia no “Arco de Sant’ana”, que na sua infância se festejavam três S. Joões na cidade: o Republicano em Cedofeita; o malhado ou liberal na Lapa e o miguelista no Bonfim. O dia de S. João era dia santo da guarda com obrigatoriedade de missa, até para a tropa.
Mas no Porto o S. João também são marchas, canções e instrumentos musicais, sardinhas assadas (tradição recente) boroa, manjericos, flores e quadras em papel, fogos de artifícios, e balões coloridos, apalpões e trocas de olhares e enamoramentos, lascívias e ruas calcorreadas por alegres multidões de gente de todas as idades e de todas as condições sociais.

CASCATAS
Tudo servia para montar uma cascata (às vezes muito parecida com o presépio e utilizando figuras comuns), são pedras e musgos recolhidos dos muros, caixas de cartão pintadas e transformadas em casinhas.
Armações de madeira, água corrente, areia e sobretudo figuras de barro representando cenas da vida real.
Das tradicionais a mais famosa era a das Fontainhas. Montada há mais de oitenta anos na fonte ali existente. As figuras de tamanho natural atraiam sempre forasteiros que aqui vinham admirar esta pequena obra-prima. Mas também eram famosas as dos Bombeiros Voluntários, da Preciosa, Fontinha, Contumil, Corticeira, Foz, Lã Maria etc.
Em 1808 Junot fez proibir por edital de polícia as fogueiras de S. João, S. Pedro e S. Marçal.
Durante o Cerco do Porto não existem grandes referências à festa e sabemos que por esta altura a grande festa do ano é “O Corpus Christi”.
Temos que ao longo do século XIX, a festança quase que muda em cada ano para uma rua diferente.

SÉCULO XX – ANOS 10
Com o advento da Republica o novel regime informou todos os municípios que tinham que escolher um dia para ser considerado feriado municipal.
Mas qual dia para o Porto? Uns imbuídos ainda do espírito republicano queriam um feriado cívico, outros um feriado religioso. Que fazer?
O Jornal de Noticias ajudou a resolver o problema.
Lançou à população o desafio de se fazer um referendo à população para saber a opinião das pessoas sobre o dia a escolher.
E assim aconteceu, as pessoas foram votando ao longo de vários dias, dando o JN notícias da evolução da votação.
Chegado o dia 2 de fevereiro de 1911, os resultados foram os seguintes:

Dia de S. João, 6565 votos
Dia 1º de Maio, 3076 votos
Dia 8 de Dezembro, 1975 votos
Dia 9 de Julho, 8 votos
Dia de S. Pedro, 3 votos
Dia de S. António, 1 voto
Dia de S. Martinho, 1 voto

Estava, pois, consagrado em feriado o dia mais festejado na cidade, a partir daqui o dia 24 de Junho é considerado feriado municipal.
Em 1920, foi escolhido o dia de S. João para se consagrar a 1ª pedra dos novos Paços do Concelho e as festividades ganharam um novo espaço com o rasgar da Avenida dos Aliados.
O facto de grande parte da população operária portuense ser quase toda ela oriunda do Minho, Douro Litoral e Beiras, além de Trás-os-Montes, explica o pendor rural que a festa sempre teve. Se juntarmos as referencias pagãs da água (cascatas, orvalhada, banho, cântaros e fontes) e fogo (fogueiras, balões, fachos, luminárias e fogo de artificio). Temos, pois, os dois elementos de purificação de fecundação (água) ou da destruição, criação (fogo).

ORVALHADAS
O hábito de se ir à Foz de madrugada já vem de longe, mas na sua essência vem como já vimos de se ir às Fontainhas. Apanhar as orvalhadas, purificar-se, banhar-se etc. …são momentos únicos e inseparáveis da noite portuense.
Na noite de S. João é bem tolo quem se deita, sem tomar as orvalhadas nos Campos de Cedofeita.
Orvalhadas minhas orvalhadas, vivam o rancho das mulheres casadas.

MANJERICOS E AFINS
As orvalhadas de Junho purificam todas as ervas, a crença nas qualidades curativas destas ervas levou o povo a acarinhar algumas destas ervas, como por exemplo o manjerico, alho-porro, alecrim, o rosmaninho, erva-cidreira, funcho, sálvia etc.
Mas o manjerico até por atavismo é a planta desta época.

ALHO-PORRO
Mas o alho-porro é sem sombra de dúvida o emblema mais tripeiro que existe.
Vem da noite dos tempos, o alho afugenta os espíritos malignos, e também serve de augúrio casamenteiro, alguns associam a um símbolo fálico.
Bater com ele em alguém é uma forma de lhe desejar boa sorte.

FONTAINHAS
Na segunda metade do século XIX as Fontainhas começam e emergir como local de excelência do S. João Tripeiro.
Alberto Pimentel dizia em 1905 que o S. João do seu tempo, 1860/ 1870 era todo Ocidental, a Foz era um lugar de excelência, às Fontainhas ia-se apenas beber a água da meia noite, ou tomar as orvalhadas. Hoje que já não há campos de Cedofeita, o povo depois de ver as cascatas vai para as Fontainhas beber o café com as torradas e esperar que chegue a manhã.
Surge, pois, aqui o aparecimento das Fontainhas, tornado santuário obrigatório das romagens festeiras e lúdicas.
Nas Fontainhas começou-se a construir uma cascata que se tornou famosa e levou a que muitas rusgas se dirigissem para lá o que lhe granjeou ainda maior fama.
Germano Silva acha que foi em 1869 que o S. João das Fontainhas se tornou a mais importante referência são-joanina na cidade, foi quando a monumental cascata se tornou uma referência, além disso o morador vendia anho assado no espeto com arroz de forno, arroz doce, aletria, vinho, aguardente etc. começou uma nova Meca.
A esta nova realidade também não foi estranha a convicção das virtudes purificadoras das águas das Fontainhas

GASTRONOMIA
Comparada com o Natal ou até com a Páscoa a tradição gastronómica do S. João é bem mais modesta. Desde o século XVIII que o carneiro vem à cabeça como principal prato desta época. Podia-se substituir por anho ou até por cabrito (com bolsas mais substantivas).
Há quem diga que pelo facto de se ir levar o carneiro para assar ao padeiro vinha-se de lá com o pão quente das primeiras fornadas…
Outra tradição que vem do século XVIII, é o tomar café com leite, acompanhado de pão quente com manteiga por volta da meia-noite. Era uma forma de retemperar as forças para o resto da noite
De tradição antiga era comer o carneiro (às vezes na noite) mas especialmente no dia de S. João. Outra tradição era beber-se o café com pão antes de se sair para as Fontainhas. As padarias ficavam toda a noite abertas para alimentar toda aquela gente.
Em 1947, começou nos jardins do Palácio uma “tradição” que muita gente acha que vem de longe. Foi o aparecimento da sardinha assada. Na famosa Feira Popular do Palácio o preço do carneiro atingiu um valor tão alto que alguns comerciantes começaram a vender a ideia da sardinha com broa e pimentos. Por causa disto quase que acabavam com a tradição do carneiro!
O único doce associado ao S. João era mesmo chamado de Bolo de S. João.
Quando começou a tradição? Não se sabe (como sempre.) mas o JN de 24 de Junho de 1910, já falava do Bolo de S. João que estaria à venda na Confeitaria Costa Moreira, Largo de S. André.
Nos anos 30 (33,34) do século XX, começaram a aparecer as farturas, nas Fontainhas, importadas de Lisboa, onde já eram vendidas desde pelo menos 1902.

QUADRAS POPULARES
Em 1929 surgiria (sem que nada o fizesse prever) uma das tradições que mais se ligariam ao S. João. De facto, o JN ao lançar a ideia de um “Concurso Anual de Quadras de S. João” iria provocar uma torrente de criatividade junto da população, convertendo-se em verdadeiro fenómeno sociológico que atravessou o século XX e entrou neste de boa saúde, sendo o responsável por milhares de quadras.

MARTELOS DE S. JOÃO
Tradição recente, começou em 1963 na Queima das Fitas, e logo um comerciante mais arguto começou a vender no S. João os martelos que lhe tinham sobrado. Estava a nascer uma nova tradição….

E como dizia Miguel Torga, que o Porto mantenha inteira, lusitana e pagã a festa do S. João.

Prof. César Santos Silva

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