Os cheiros, os ruídos, a pedra. Disto se faz o nosso Porto Oitocentista. Uma cidade onde primeiro se ouvem  gritos de revolta, onde se trabalha, vive, morre e se tenta construir uma visão de liberdade sobre ruínas medievais.

A viragem do século traz consigo perturbações de ordem politico-económico-social (invasões francesas, crise comercial, instauração do liberalismo … ), que serão reflectidas num momento de paragem urbanística. Nos anos 20, far-se-á a abertura e construção de algumas artérias, como a Rua dos Bragas ou do Bom Retiro, que, no entanto não modificarão este momento de estagnação, a penas contrabalançado por um crescimento do casario extramuros.
O cerco do Porto, em 1832-33, vai facilitar a degradação da zona ribeirinha, mais atingida pelas granadas e pelo esvaziamento populacional, que ocorre em direcção às zonas mais altas da cidade, mais arejadas, mais saudáveis, com melhor construção habitacional. As camadas sociais que mais abandonam o Rio são aquelas economicamente mais abastadas, ficando o centro medieval entregue maioritariamente a quem dele não pode ou não consegue sair. É o momento do crescimento da zona de Cedofeita , por exemplo, e da generalização do gosto pelos chalés murados, recatados e independentes. É o momento de um certo reordenamento espacial da cidade, mantendo-se a construção em altura no centro por contraste com zonas periféricas.
O Cerco parece ser, na opinião de alguns autores, um momento de reordenamento e mudança, não só em termos espaciais, como sociais, muito embora o centro comercial da cidade continuasse próximo do rio, na Rua Nova dos Ingleses, na Rua de S. João, no Largo de S. Domingos, na Rua das Flores … Ai mantinham as suas sedes as empresas portuenses e estrangeiras. Aliás, a pós o Cerco, esta área será a de implantação não só de uma burguesia mercantil, como também de uma burguesia financeira.
O Porto de meados do século XIX parece-nos uma cidade com um enraizado coração comercial, na zona baixa, reforçado pala construção da ponte pênsil entre 1841-1843; mas com um alastrar de outros pólos dinamizadores, como é o caso do novo centro cívico, a Praça Nova , os mercados do Bolhão e do Anjo, a Bolsa, novas ruas, como a da Constituição, ou de Gonçalo Cristóvão.
A década de 60 é de aceleração do movimento de urbanização, aliás, em consonância com uma situação económica positiva. A preocupação urbanística afirmasse tanto no tocante à periferia, como no tocante ao centro urbano, construindo-se urbanizações, melhorando-se o sistema viário, destruindo-se zonas insalubres. Vão-se utilizando as praças, de formato redondo ou quadrado, e a malha das ruas em triângulo, tão preferidas por Haussman e os seus sucessores, e que permite obter o maior número de ângulos que favoreçam o comércio.
Entre 1870 e o final do século XIX, a malha urbana alastra e adensa-se, com um coevo aumento populacional. Abrem-se, na zona central da cidade, as Ruas Sá da Bandeira e Passos Manuel. Em 1896 é aberta a Estação de S. Bento, tendo ocorrido nos vinte anos anteriores um razoável aumento das ligações ferroviárias do Porto, factor que não terá sido alheio à urbanização das zonas circunvizinhas de Campanhã.
As zonas da Constituição e Boavista conhecem um dinamismo notável, abrindo-se, por exemplo, várias artérias na primeira e a Praça da Boavista, na segunda. Até a Foz ficou “mais perto” dos portuenses, com a introdução do “americano” (1872) , do “eléctrico” e a abertura do Passeio Alegre (1888). Em 1895 abre-se a estrada da Circunvalação, integrando as freguesias de Nevogilde, Aldoar e Ramalde no Concelho.

Conhecer o Porto do século XIX é encontrar os ecos de uma revolução das mentalidades, de uma tentativa de criar um país novo, de colocar Portugal no mapa europeu. Velho como Portugal, o Porto sempre soube defender os seus valores e durante a centúria de Oitocentos vemo-lo empenhado na condução de uma nova ordem liberal e burguesa.

“Nessa época podiam distinguir-se na Cidade Eterna – como os Liberais chamavam ao Porto – duas espécies de indivíduos, distintos e antagónicos pela sua psicologia: – uma, idealista e sonhadora, outra prosaica, terra-a-terra.”
Bastos, Carlos

 

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