Cafés da Praça D.Pedro (Liberdade) e na sua proximidade

Planta cafés final do sec XIX

Segundo um periódico, intitulado “Os Palradores no Café”, de 1822, podemos crer na existência destes locais de convívio e de longas cavaqueiras, pela menção que faz a dois Cafés; o da Porta dos Carros e o das Hortas.

Café Porta de Carros

Café da porta dos carros

O Café da Porta de Carros, fundado em 1820, localizava-se no Largo com o mesmo nome, “nos baixos de um prédio de primeiro andar, que se achava (no meio de mais dois) encostado à demolida muralha Fernandina”, mesmo em frente à Igreja dos Congregados. Este café pertencia ao senhor Frutuoso, pai do arcebispo de Calcedónia, D. António Ayres Martins de Gouveia. Ricardo Jorge classificou-o como sendo “um café famoso, conhecido em todo o Porto, e redondezas, sendo frequentado, assiduamente, por varredores de ruas, calceteiros da Câmara, lampianistas do gás, madrugadores do trabalho e devotos da missa da alva dos Congregados. Horácio Marçal refere que, em 1852, este estabelecimento já era considerado muito antigo. Encerrou em meados da segunda metade do século XIX.

Café das Hortas

O Café das Hortas encontrava-se sediado na Rua Nova das Hortas (actual Rua do Almada), na esquina com a Rua da Fábrica. café das hortasHorácio Marçal indica-nos que este café “pertencia a Domingos José Rodrigues e foi fundado no ano de 1820, com secção de bilhares no primeiro andar”. Alcançou grande fama na cidade do Porto da época, pelo facto de servir um dos melhores cafés da cidade. Além do bilhar, também se jogava aqui o dominó, as damas e o quino (loto).

Em 1880 o café foi transformado, por outros proprietários, em restaurante e os pisos superiores deram lugar ao Hotel Internacional, que ainda hoje existe.

Ao longo do século XIX, outros estabelecimentos com as mesmas características foram aparecendo, nomeadamente:

Café Guichard

Café Guichard abriu por volta de 1833, na Praça D. Pedro –Guichard_0003 “edifício que fora dos frades dos Congregados, duas portas adiante da esquina que torneia para o templo” – que posteriormente se transformou na do antigo Banco Nacional Ultramarino. Por meados do século, este café notabilizou-se como um dos mais afamados da cidade,  devendo-se a este a introdução do sorvete, por um italiano, de seu nome Trucco (na altura empregado deste café), na cidade do Porto. Tendo sido frequentado por algumas das mais prestigiadas personalidades da literatura portuense, por aqui deambularam António Coelho Lousada, Arnaldo Gama, Amorim, Viana, António Girão, Custódio José Vieira, Evaristo Basto, Faustino Xavier de Novais, José Passos, Júlio Dinis, Marcelino de Matos, Ricardo Guimarães, Ramalho Ortigão, Sousa Viterbo e Camilo Castelo Branco. Conta-nos Firmino Pereira que, numa determinada tarde agitada, em plenas instalações do Café Guichard, “o cônsul alemão Friedelain impediu que Ricardo Browne, ardendo em cólera, chicoteasse Camilo que, para se defender, puxara duma navalha toledana, como numa rixa sórdida de magarefes ou almocreves”. Café Guichard Pintura de Dordio Gomes (1890-1976), de CamiloMuito embora fosse reconhecido, por vários como um local deveras avesso às condições de higiene, como é o caso dos testemunhos de Gomes d’Amorim e Artur de Magalhães Basto, foi também elogiado por outras personalidades contemporâneas do estabelecimento e que por ele deambularam, tais como Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis, que o descreveram como um autêntico luxo nesta tipologia de estabelecimento comercial, atendendo à sua época de laboração.

“A’s noites, no Guichard, esses moços que vinham da Tavora Redonda,  escorropichavam copinhos de hortelã pimenta, declamando Lamartine, Soares de Passos e João de Lemos. Era o botequim dos Alfredos e dos Manricos, de melena revolta e alma ardendo em labaredas romanticas. Aí se reuniam habitualmente os literatos, os poetas e os romanticos que vinham das agitações do cêrco e da Patuleia e que, entre um calice de licôr e uma fumaça de charuto, decidiam dos destinos da arte e da política. Era lá que, ás tardes, invariavelmente aparecia, hirto e misterioso, o Friedelain, consul alemão, homem de habitos exoticos, elegante como o Brown e como ele apaixonado pela musica. Esse diplomata janota, que reunia os seus amigos numa sala atulhada de moveis de arte, a que uma Venus de marmore presidia do alto do seu rico pedestal de pau preto, cantava velhas canções germanicas, encostado ao piano, de olhos fitos na Venus tutelar… Camilo achava-o maluco, mas encantador. […] De resto, no Guichard (onde o italiano Trucco iniciára o tripeiro nas delicias do sorvete), muitas vezes sucediam casos tragicos de murros vingadores. Os poetas suspiravam mas tambem batiam… e levavam. E era sempre no botequim que essas batalhas de amor se feriam, aquecidas ordinariamente a cognac ou a licôr de rosa, que era o netar predileto dos moços apaixonados… Nesses tempos de balada e murro, o botequim era o centro de toda a vida portuense. A’ volta de uma mesa compunham-se odes, combinavam-se raptos, planeavam-se conjuras. Discutiam-se os mais complicados problemas da politica e da arte, umas vezes serenamente, outras entre vociferações, apostrofes, ameaças e… garrafas partidas […]”guichard

PEREIRA, Firmino – O Porto D’Outros Tempos: Notas Historicas, Memorias,  Recordações

Segundo nos informa Horácio Marçal, “encerrou as suas portas em 5 de Fevereiro de 1857”, dando lugar à instituição bancária Pinto da Fonseca & Irmão, tendo ficado para a história como o mais famoso café do Porto do século XIX.

Café da Neve

Café da neve

Na Rua de Santo António (actual Rua 31 de Janeiro), em 1851, próximo do famoso Teatro Baquet, nasce o Café da Neve. 

Segundo o Tripeiro de 1 de Março de 1910, o proprietário deste café era “um tal snr. Francisco Corrêa, ao qual pertencia também o Circo […]”. Este Circo é o actual Teatro Sá da Bandeira, conhecido, em meados do século XIX, por Teatro Circo. Estabelecimento ao nível do piso térreo, com instalações modestas, constituídas por um espaço com mesas marmóreas para tomar café e, ao fundo, um outro para a prática do bilhar e do quino. Os frequentadores deste café eram gente modesta: empregados do comércio, pequenos negociantes, artistas e luveiros, para além dos actores e actrizes dos Teatros Baquet e Circo (como por exemplo, a tão famosa actriz dramática Emília das Neves)  próximos deste café.
Diz-se que o nome deste café teve origem nos sorvetes que vendia, segundo alguns jornais da época uns dos melhores sorvetes da cidade. . Tinha uma sala privada para “as senhoras e famílias particulares tomarem neve”.  Fica, inclusivamente, para a história como uma das raras excepções de cafés portuenses que possuíam sala privada para as mulheres.

Café Suisso

café suisso

Café Suisso, localizado na esquina da Praça de D. Pedro com a actual Sampaio Bruno, abriu portas em 17 de Abril de 1853, como Café Lusitano (após ter sido um hospedaria – Resende) e mais tarde Café Portuense.  Durante este primeiro período de actividade, o espaço interno do café encontrava-se distribuído por “uma grande sala com 8 mezas e outra menor com 4 para serviço de Botequim, ambas do lado da rua, com acceio, e boa iluminação de noute, e duas salas de bilhar com as competentes mezas e mais pertences, uma para o lado da mesma rua, e a outra para o lado da praça”MARÇAL, Horácio – Os antigos botequins do Porto

As obras de luxo realizadas colocaram o proprietário numa situação de bancarrota originando a sua venda em 15 de Janeiro de 1860 , cujo proprietário, lhe alterou o nome para Café Portuense.café Suisso 1900 Praça D. Pedro

No final da centúria de oitocentos, foi considerado o melhor da cidade, frequentado por uma clientela muito heterogénea, constituída por políticos, artistas, literatos, jornalistas, entre muitos outros. Aqui se reuniam, quase todas as noites, Nogueira Lima, Guilherme Braga, Júlio Dinis, Alexandre da Conceição, Pedro de Lima, José Dias de Oliveira e Custódio José Duarte – autores da célebre revista literária A Grinalda.

Manter-se-á com a mesma estrutura formal até 1901, período em que foi tomado de trespasse pela firma José Cesário de Magalhães & Irmão, fechando para obras de remodelação a 18 de Setembro de 1901. Reabriu em 31 de Janeiro de 1902. Defendem também alguns autores que, no interior deste estabelecimento, “se forjou a Revolução Republicana do 31 de Janeiro.

Café Suisso Portuense 1920

Em 1920 foi alvo de um melhoramento a nível da sua fachada, como consta de projecto da  proprietária do edifício Maria da Costa Lima Castanheira.

A inauguração do Café Suisso, no lugar do desaparecido Portuense, do lado nascente da Praça de D. Pedro, parece ter constituído um marco importante nesta transição, tendo causado sensação à data de abertura, sobretudo pela considerável dimensão e pelo requinte de uma decoração onde pontificavam os espelhos, os jarrões de flores, os candelabros e as cadeiras de veludo. Na esquina de Sá da Bandeira (agora Sampaio Bruno) com a Praça de D. Pedro, o Suisso era frequentado sobretudo por grandes comerciantes e outros elementos destacados da sociedade, ajudando a reforçar a concentração de cafés.” FERNANDES, José Alberto Rio – Coisas do Porto: O Botequim
café suisso 1937Nesta época, o café começa a atingir o seu período áureo, que culminou depois, já ostentando o nome de Café Suisso tendo como proprietários a sociedade Pozzi & Cª.

Dobrou o século XIX para o século XX sendo o primeiro café concerto do Porto, proporcionando à sua clientela boa música executada por um terceto de piano, violoncelo e contrabaixo, encerrando as suas portas em 1958.

Café Brasil

O Café Brasil, fundado em 1859, localiza-se na Rua da Madeira, mesmo ao lado da Estação de S. Bento, naquela espécie de largo onde se realizava a antiga Feira da Madeira e dos Passarinhos. É um dos poucos cafés desta época que, felizmente, ainda se encontra activo. Café Brasil
Ao longo do seu período de duração passou pelas mãos de diversos proprietários. Começou por pertencer a um tal Costinha, que o passou a Alberto Arguelhes, tendo este último trespassado o estabelecimento, em 1939, a um seu antigo e zeloso empregado de seu nome António Silveira, que o passou a gerir, em sociedade, com o seu cunhado Eduardo Pinto da Cruz, “firma que girou sobre a denominação social de Silveira & Cruz”.

Café Brasil actualEste estabelecimento tinha, na segunda metade do século XIX, duas mesas privativas para o jogo do dominó: a dos Cardeais e a dos Indígenas. Na primeira sentavam-se, assiduamente, Guilherme Braga e Paulo Falcão e na segunda Arnaldo Leite, Sampaio Bruno e Ramalho Ortigão, na segunda por Arnaldo Leite, Sampaio Bruno, Ramalho Ortigão, entre outros. Hoje já não possuí o prestígio que alcançou naqueles tempos da segunda metade do século XIX e primeira da centúria de novecentos.

Café Camanho

Do lado nascente da Praça de D. Pedro abre, por volta de 1870, o Café Camanho, por intermédio do espanhol Manuel José Camanho – antigo empregado da cervejaria Frederico Clavel, na Rua do Bonjardim –, tendo aqui permanecido até 1917.Café Camanho e Igreja dos Congregados Atendendo ao espaço humilde, apertado e sombrio do café, Manuel Camanho, à custa de muito trabalho e das suas próprias economias, resolveu, em 1880, transformar e alargar o estabelecimento, tornando-o “moderno, arejado, mais amplo e mais cómodo, dentro da sua traça primitiva, com o balcão ao fundo, debaixo das clássicas escadas, e as estantes das bebidas em volta das paredes, ostentando as botijas da genebra Fockink e as garrafas do Porto 1815, de gim, whiskey, etc.

CAFÉ CAMANHO - INTERIORSerão duas as curiosidades que irão marcar e identificar especialmente este café: o facto de possuir, por cima do balcão, umas escadas serpenteadas e muito requintadas, que davam acesso ao piso superior onde se localizava o armazém; e o caráter decorativo das paredes, que foram guarnecidas por estantes a toda a volta da sala, onde se colocaram as mais prestigiadas qualidades de bebidas estrangeiras, que eram comercializadas neste café.

Cláudio Corrêa D’Oliveira Guimarães descreve-nos o ambiente de puro sabor literário que se vivia no Camanho:

No seu estranho ambiente de café flamengo, quase gémeo do que vive nos interiores severos de Breuwer, rutilou, amiúde, a flama azul dos paradoxos.  Os fains da ironia coeva, espadachins temíveis no exercício, aliás, complexo, da exedra literária, casquinaram ali, com rara exuberância, o oiro tilintante dos seus risos, sonoros como um contato de cristais, em ágape festivo. Reconstituíram mesmo no Camanho o simbólico coin des fauves da expressão francesa”.

café camanho 2

Foram frequentes assíduos deste estabelecimento personalidades ligadas às “artes e letras como o pintor Francisco José Resende, Guerra Junqueiro e António Nobre”.

Segundo Cláudio Corrêa D’Oliveira Guimarães, e sobre Guerra Junqueiro, em Evocando dois cafés portuenses:

“Ao soarem as onze badaladas tintinantes no relógio da casa, o poeta de Os Simples erguia-se invariavelmente do seu banco, sobraçava o guarda-chuva inseparável, esparguia em torno, mordente e volátil como uma vespa de oiro, […], após o que desaparecia placidamente, […]”

café camanho 1Foi neste estabelecimento que desabrochou a corrente literária conhecida por Nefelibatismo, tendo António Nobre como principal representante. E, comprovando, uma vez mais, o prestígio que o Camanho alcançou no seio da sociedade portuense, em inícios do século XX, é relevante mencionar a efeméride, ocorrida em novembro de 1908, quando o culto negociante Dr. Júlio da Fonseca Araújo, que foi presidente da Associação Comercial do Porto de 1906 a 1911, teve o ensejo de receber, no Camanho, numa festa memorável, de rara sumptuosidade, o jovem rei D. Manuel II, aquando de uma sua visita oficial à cidade do Porto.

Café Camanho 3

Por aqui se vê a celebridade deste café, naquela época.
Por volta de 1946 ainda se conservava activo, como restaurante, na Rua Sá da Bandeira, tendo encerrado pouco tempo depois. Todavia, a sua actividade exclusiva como café, na Praça de D. Pedro, terminou muito antes, em 1917.

Café Central

Fundado no último quartel do século XIX, o Café Central de Basílio de Sá Carneiro – localizado na esquina entre a desaparecida Rua de D. Pedro e a actual Sampaio Bruno,café central no local preciso onde se encontra actualmente sediado o Café Embaixador – foi, na época, um dos estabelecimentos privilegiados pelos estudantes, e as tertúlias literárias eram frequentes. Jaime Cortesão e Leonardo Coimbra foram alguns dos frequentadores deste café.
Encontrava-se guarnecido com “mesas de mármore, grandes espelhos enquadrados em caixilharia de cana-da-índia e lambris em madeira”. Horácio Marçal escreveu o seu primeiro artigo, em 1936, para o semanário académico Alma Lusa.Café Central na Praça É no Café Central que, na noite de 30 de Janeiro de 1891, o tenente Manuel Maria Coelho é informado da proximidade da revolução republicana.  Em 1897 transfere-se para o quarteirão dos Congregados, onde alcançará o seu período áureo, e em 1933 é encerrado, “quando o prédio foi demolido para que se construísse, no seu lugar, o edifício que veio a albergar o Café Imperial.

Com a entrada do século XX quatro novos cafés se irão notabilizar neste núcleo urbano de cafés da Praça e suas imediações. São eles os cafés: Chaves, PrimaveraRecreio (anterior República) e Astória.

Café Chaves

O Café Chaves é inaugurado a 10 de Março de 1900 na Praça de D. Pedro, cujo proprietário era Aníbal Chaves. Segundo nos informa Horácio Marçal, localizava-se, especificamente, “na bifurcação das desaparecidas Ruas de D. Pedro e do Laranjal, por baixo do Hotel Francfort”.café chaves
Após uma permanência de dezassete anos neste local e por motivos relacionados com a abertura da Avenida dos Aliados – que obrigou à demolição do edifício onde estava instalado –, acaba por ser transferido, em 24 de Dezembro de 1917, para o Chalet do Jardim da Cordoaria. Os seus clientes eram dos mais “selectos” da cidade. Segundo Armando Gomes Ferreira “a um lado agrupavam-se, em acalorada polémica, Pádua Correia, Duarte Solano, Simões de Castro, Vaz passos, Atosto Silva, Adriano pimenta, Júlio Vitória, Queirós Magalhães, Ribeiro Seixas, Virgílio Ferreira,  assim  como Leonardo Coimbra. Noutra extremidade era certo encontrarem-se os artistas José Maria Soares Lopes, Armando de Basto, João Peralta, Manuel Martins, Carlos de Sousa, Virgílio Angelo, José Cassagne e os drs. Jaime de Almeida e Neto Cabral. Durante o período em que esteve sediado na Praça de D. Pedro, este café alcançou grande notoriedade devido, fundamentalmente, ao facto de ter sido frequentado, assiduamente, por filósofos, artistas e poetas boémios.

Neste local irá permanecer durante, sensivelmente, 32 anos, acabando por encerrar, definitivamente, em 1949 quando, por exigências urbanísticas, o Chalet é demolido.

Café Recreio

Em 6 de Agosto de 1904 abriu, na antiga Rua do Laranjal, o Café Recreio, Café Primaverainicialmente com o nome de República. O seu proprietário era o Senhor José Luís do Couto Querido. Este café foi um dos primeiros estabelecimentos que se notabilizaram, no âmbito de uma característica particular, que alcançou grande popularidade naquela época, o café-concerto, com espectáculos de música e dança, que se realizavam frequentemente. O café tinha nas suas instalações mesas para tomar café ou beber vinho a copo ou à caneca e um espaço para espectáculos de música e/ou dança. Aqui actuaram, durante sensivelmente treze anos, diversas bailarinas espanholas e músicos variados. Acabou por encerrar em 1917, face às obras realizadas para abertura da Avenida dos Aliados.

Café Primavera

Outro café que seguiu na mesma linha do Recreio foi o Café Primavera. Fundado por meados do ano de 1908, na mesma Rua do Laranjal, o Café Primavera também ficou marcado pela actuação diária de diversas bailarinas espanholas e músicos de reconhecimento moderado, com zaragatas à mistura.Café Primavera Segundo nos informa Maria Costa, “tinha uma clientela heterogénea – cocheiros, operários, jornalistas e comerciantes”. Em 1917 acabou por encerrar as suas portas, com as obras de demolição para abertura da Avenida dos Aliados, transferindo-se para um prédio da Travessa da Picaria (hoje integrada na Praça Filipa de Lencastre), onde permaneceu até meados do século. Este café é recordado por Manoel de Oliveira no filme “Porto da minha Infância”. Encerra na primeira metade do Século XX.

Café Astória

café astória foto Teófilo Rego em 1920

astoria cafe porto

No edifício das Cardosas – esquina com a Praça de Almeida Garrett, bem próximo da Estação de S. Bento – abre, em 12 de Março de 1932, o Café Astória. Era um café “com três pisos: bar e cervejaria ao nível do rés-do-chão, café e salão de chá ao nível do primeiro andar e sala de jogos no segundo piso”. Neste local concentravam-se clientes em demanda da estação ferroviária, seguindo, portanto, os horários desta última. Encerrou as suas portas a 15 de Abril de 1972, em prol da abertura de uma instituição bancária – algo frequente na cidade do Porto desta época.

Outros Cafés do Núcleo Urbano dos Cafés da Praça e seus arredores:
Café Júlio, Café Continental, Café Baviera, Café Casa Baptista, Café Ventura, Café Áurea, Café S. Tomé, Café Rainha, Café Europa, Café Cascata, Café Porto e Café Navarro.

Cafés da Batalha e suas imediações

Na origem do nome, acredita-se que esteja a sangrenta batalha entre os sarracenos de Almançor e os habitantes da cidade do Porto, que foram derrotados, o que ocasionou a destruição total desta cidade. Este acontecimento terá tido lugar no século X. Ao longo do século XIX, a Praça da Batalha desempenhou, também, um papel de grande relevo como espaço de encontro, lazer e ócio da população portuense da época. Já aqui se localizava naquele tempo o Teatro de S. João – o mais antigo e concorrido do Porto –, que teve um papel fundamental como local onde se realizavam actividades culturais, designadamente, peças de teatro, concertos musicais e espectáculos de dança, que diariamente deliciavam a população. A presença de grande número de hospedarias, casas de pasto e dos melhores hotéis da cidade, que aqui se localizavam, também contribuíram para o prestígio que este espaço alcançou na cidade do Porto, durante a centúria de oitocentos, atraindo os seus cidadãos quase assídua e diariamente.

Aqui se notabilizaram, ao longo do século XIX, dois cafés: Águia d’Ouro e Leão d’Ouro (anterior Comuna).

Café Águia d’Ouro

Fundado em 27 de Janeiro de 1839, o Café Águia d‘Ouro localizava-se na Praça da Batalha (antigo Largo de Santo Ildefonso). Aguia-dOuro.2.16Esta data tão objetiva é-nos fundamentada por um anúncio publicado no jornal O Athleta, de 24 de janeiro de 1839, que chegou até aos nossos dias e que nos informa que “Domingo 27 do corrente mez de Janeiro, no Largo de Santo Ildefonso, se abre o novo café da Águia, ao gosto moderno, onde haverá diversas bebidas com bons serviços, e Neve na estação competente. Na mesma casa há todos
os dias Gelatina de mão de Vitella e raspa de
veado, própria para doentes e melhor para sãos. Foi seu proprietário, até Junho de 1904, Luís Ferreira de Carvalho que, nesse ano, o passou para os seus dois empregados: Alberto Joaquim e Manuel Ventura Vieira de Mesquita. Café Águia D'OuroEste café possuía uma “sala principal no rés-do-chão e hospedaria no primeiro andar”. Nesta sala, ao nível da rua, localizava-se o café com o seu bilhar. No primeiro piso a hospedaria era frequentada, diariamente, “pela mocidade estúrdia e folgazã que se reunia frequentemente em jantares e ceias animadíssimas”. Este café foi, sem dúvida, um dos principais pontos de encontro de todas as personalidades da literatura, da política e das artes da cidade do Porto da segunda metade do século XIX e primeira da centúria de novecentos. Camilo foi seu frequentador habitual, após o encerramento do Café Guichard. Nos anos 30 do século XX fecha as suas portas, de forma temporária, para renovação, em adequação ao movimento de remodelações, ocorrido, naquela década, em praticamente todos os cafés da cidade e reabre a 7 de Fevereiro de 1931 com nova fachada de vidro e pórtico com o símbolo do estabelecimento (a águia).

Aguia-dOuro.2

O café, no piso térreo, manteve-se, mas a hospedaria do primeiro piso deu lugar a um salão de bilhares e outros jogos – os chamados jogos lícitos. O Teatro e Cinema mantiveram-se no segundo piso do edifício. Ao nível da fachada, em questões formais, esta manteve os três pisos, alterando-se, todavia, a sua plasticidade. O primeiro dos dois, a encimar o café, passou a ser detentor de quatro vãos de iluminação envidraçados e com molduras preciosamente ornamentadas e o segundo manteve as seis janelas de sacada, mas desta vez em serliana, com molduras ornamentadas. A encimar toda a fachada encontrava-se um placar publicitário com a expressão AGUIA D’OURO CINEMA, mais tarde substituído por CINE AGUIA.Aguia-dOuro.26

Por aqui passou todo o portuense com nome na política, na literatura, no jornalismo e na arte, tendo, nas mesas deste café, agitado as mais graves e complicadas questões que nesses tempos preocupara a alma nacional. Foi aqui que “[…] os Passos planearam o movimento da Patuleia […]. Foi também n’uma d’aquellas mesas que se pensou e originou o Club Patriota, fomentador do movimento de 1868, conhecido pelo nome de Janeirinha, ultima palpitação d’esse grande coração do Norte que se chama Porto”. GIRÃO, Júlio Ferreira – O Professor António Girão. Porto, O Tripeiro, série II, n.º9, ano I, 1 de maio de 1919, p. 171.

 Café águia dóuro Moov-Hotel.15Após quase século e meio de actividade, o Café Águia d’Ouro acabou por encerrar as suas portas em 1978, tendo, todo o edifício, sido comprado pela empresa Solverde. Em Agosto de 2006 a Solverde põem o imóvel à venda e, mais recentemente, toda a fachada, incluindo o local onde se localizou o café, foi restaurada e totalmente renovada, para acolher um hotel, que abriu ao público em 2011.

Café Leão d’Ouro

A história do Café Leão d’Ouro em 1857 inicia com o nome de Comuna. café leão d'ouro 1915A origem deste nome deve-se ao facto de ter sido “local de encontro de liberais, republicanos e socialistas”, sendo, por este motivo, frequentemente vigiado pela polícia, que acabou por ordenar o seu encerramento no ano de 1889. Por incentivo dos seus clientes habituais, o estabelecimento acaba por voltar a abrir nesse mesmo ano, sob a gerência de Alberto Joaquim, tendo, para isso, de alterar o seu nome. Passou então a chamar-se Café Leão d’Ouro. Entre 1857 e 1889, reuniram os liberais da época que, em conversas despreocupadas, discutiam e preparavam afincadas conspirações. Esta realidade levava a que a polícia, por ali deambulasse, quase diariamente.café leão d'ouro 1930 No sentido de camuflar os idealismos revolucionários que proliferavam neste estabelecimento, o mesmo foi obrigado a alterar o seu nome para Leão d’Ouro, aquando da sua reabertura, ainda no mesmo ano de 1889. A partir deste segundo período passa a ser frequentado por figuras do Teatro e das Artes Plásticas. Após a segunda interrupção, ocorrida entre 1926 e 1934 para remodelações, passará a ser frequentado por personalidades de índole social e profissional diversificada. Neste período de meados da primeira metade do século XX as tertúlias estético-plásticas, realizadas naquele café, serviram de ponto de partida para a publicação de diversos artigos em revistas literárias e artísticas que naquela época proliferavam pela cidade. Foi nas mesas deste café que se desenhou a iniciativa “da formação dum Teatro Experimental, iniciativa que frutificou no TEP e deu novos rumos ao nosso Teatro. Dada a proximidade do Teatro de S.João, foi frequentado, inclusivamente, já com o nome de Leão d’Ouro, por “inúmeros actores em digressão pelo norte: Beatriz Costa, Amélia Rey Colaço, Teresa Gomes, António Silva, Raul de Carvalho, Ribeirinho e muitos, muitos outros”. Acabou por encerrar de forma definitiva, por meados do início da segunda metade do século XX.

Café Chave d’Ouro

café chave d'ouro

Já em pleno século XX notabilizar-se-á, neste núcleo urbano de cafés da Batalha e suas imediações, o Café Chave d’Ouro.

Este café abre portas em 1920 em plena Praça da Batalha. Constituído por piso térreo e primeiro andar, tinha, ao nível do rés-do-chão, o café propriamente dito, e no primeiro piso localizava-se o salão de bilhar. Por meados da década de trinta da centúria de novecentos seguirá o mesmo exemplo de todos os seus congéneres, efectuando uma total remodelação da sua fachada. café chave d'ouro 1Segundo nos informa Marina Dias, “entre a sua clientela contavam-se […] muitos empregados do comércio”. Em 10 de maio de 1958, procedeu-se, aqui, à “reunião de Humberto Delgado com jornalistas nacionais e estrangeiros. Esta realidade ainda se mantém na actualidade, uma vez que este café ainda se conserva activo nos dias de hoje, apesar de muito adulterado quanto à sua estrutura formal original. Na fachada ainda é perceptível a indicação do salão de bilhares no primeiro piso, mas o mesmo já não se encontra em actividade.

Cafés do Carmo e suas imediações

O núcleo urbano de Cafés do Carmo e suas imediações, localizado no bairro ocidental, desenvolveu-se, ao longo do século XIX, no seio de uma área urbana, que durante esta centúria veio substituir os antigos campos do Olival, tornando-se numa importante zona comercial. Ocupando com o alargamento para a Academia Real de Marinha e Comércio o antigo Passeio da Graça, a Rua do Carmo cobria-se de lojas de cordoeiros, estofadores, doceiros, boticas, possuindo, inclusivamente, desde 1833, a Casa Damas, com mercearia e cervejaria. Lojas de louceiras abriam-se no rés-do-chão da Academia, abrigadas em cada um dos portões da mesma. cafés núcleo urbano carmoDo lado norte da antiga Praça dos Voluntários da Rainha (actual Praça de Gomes Teixeira) existiam mercearias e farinheiros, a nascente, lojas de fazendas e de retalho “que estendiam cobertores, toalhas, lenços, xailes ou cachenés nas frontarias, dando um ar de eterna feira às ruas”. Em local ligeiramente mais afastado, concretamente, na cunha entre o Largo dos Ferradores (Carlos Alberto) e a Praça de Santa Teresa, existiam várias mercearias, tendo-se notabilizado a mercearia dos Penas, como a mais famosa na época.
Segundo nos informa Luís Ramos, “as casas eram quase todas baixas, com um andar e trapeiras; nas escadas que ligavam com a praceta do Moinho de Vento ficava um outro motivo de atracção, a Arca (hoje Sá Noronha), que recebia, com a água dos mananciais de Salgueiros, a de Paranhos, a melhor água do Porto.”

A Cordoaria, localizada nas imediações deste núcleo urbano, teve, inclusivamente, ao longo do século XIX, um papel de grande relevo, frequentado por grandes personalidades do Porto de oitocentos, que aqui discutiam assuntos relacionados com a arte, a política, o teatro, as mulheres, enquanto bebiam copos de cerveja multiplicados. Só mesmo já ao início da noite é que se levantavam e retiravam em conversa permanente, abandonando lentamente o local.

Partindo da Praça de D. Pedro (antiga Praça Nova e actual Praça da Liberdade) em direcção a ocidente, pela Rua dos Clérigos, desembocamos com o núcleo urbano de cafés do Carmo e suas imediações. Destacaram-se neste espaço urbano da cidade, ao longo da centúria de oitocentos, cinco cafés: o Graça, o Portas do Olival, o Martinho, o Âncora d’Ouro e o Progresso.

Café da Graça

O Café da Graça localizava-se dentro do edifício inacabado da antiga Academia Real de Marinha e Comércio, transformado, em 1837, na Academia Politécnica do Porto, na esquina da Praça dos Voluntários da Rainha (actual Praça de Gomes Teixeira, também conhecida por Praça dos Leões) com a Praça de Parada Leitão.café da graça

Pela descrição que podemos ler na Crónica Constitucional do Porto de 26 de Janeiro de 1833, neste café era servida “água-ardente da terra e vinho da madeira de superior qualidade”. Alberto Pimentel informa-nos, inclusivamente, que as farinheiras e loiceiras, “de canequinha em punho, iam
ali fazer a sua provisão de café […]”
Era este um café, fundamentalmente, de estudantes, que aqui passavam os dias a jogar dominó, admirando as farinheiras e loiceiras que ali iam fazer a sua provisão de café.

Alberto Pimentel, no seu livro A Praça Nova, informa-nos do seguinte: “Era um botequim de estudantes, onde passei não poucas horas em alegre convivência com os meus condiscípulos, sem nos importarmos com os caturras do dominó.” No ano de 1900 acabou por encerrar, por motivos relacionados com a conclusão das instalações da Academia Politécnica do Porto.

Café Portas do Olival

Localizado no Campo dos Mártires da Pátria, o Café Portas do Olival foi  inaugurado por meados do ano de 1853. Começou por ser conhecido por Botequim do Olival, existindo, ainda hoje, a dúvida sobre o facto deste primitivo botequim poder ou não ser o mesmo que, ainda hoje, lá persiste, apesar de muito adulterado.

café portas do olival

Certo é que o que lá perdura actualmente pertencia, nos primeiros anos do século XX, a Joaquim da Silva (conhecido pelo homem das barbas compridas), que o passou a uma criada sua, após a sua morte, ocorrida em 1916 ou 17. Após a morte da criada e do seu marido António d’Oliveira, o café passa a pertencer a uma irmã do último que, por sua vez, o trespassou ao actual proprietário. Horácio Marçal , em os Antigos Botequins do Porto, informa-nos do seguinte: “Durante o ano de 1927, quando recruta do regimento da 1.ª Companhia de Saúde, nas Taipas, fomos bastantes vezes ao 1.º andar deste modesto cafezinho jogar algumas partidas de bilhar […]

Café Portas do OLIVAL E CIRCUITO 072

Mas o aspecto que celebrizou este café e, ainda hoje, é motivo de visita para muitos portuenses e turistas, prende-se com o facto deste estabelecimento ter sido, segundo afirma Júlio Couto no seu “O Porto em 7 dias”, “edificado no local onde existia a grande porta das muralhas medievais, a tal porta por onde entrou a inglesa D. Filipa de Lencastre com o seu séquito, quando para aqui veio para se casar com D. João I […]”. Porta do Olival por Gouveia PortuenseCom as obras de restauro do café, realizadas em meados do século XX, foi encontrada uma pequena parcela de uma parede medieval. Segundo defende o historiador Bernardo Xavier Coutinho, que estudou o assunto ao pormenor, esta parede faz parte dessa tal porta – a Porta do Olival, pertencente à antiga Muralha Fernandina

Este café ficou famoso pelo facto de preservar uma pequena parte da antiga Porta do Olival, pertencente à Muralha Fernandina, actualmente demolida.

Café do Martinho

café do MartinhoO Café do Martinho foi fundado por Martinho José Matias (antigo soldado da Guarda Municipal) no ângulo da Praça de Parada Leitão, por meados da segunda metade do século XIX. O café era constituído por uma sala, ao nível do piso térreo, com mesas para o consumo do café e outras bebidas similares e um pequeno salão no primeiro piso, com uma única mesa de bilhar.  Este café foi frequentado por algumas personalidades ilustres da cidade, tais como: Guerra Junqueiro e Alexandre Alberto de Sousa Pinto (ministro da Instrução Pública e reitor da Universidade do Porto). Acabou por encerrar em 1915.

Café Âncora d’Ouro

café do ancora d'ouroInaugurado em 1883, o Café Âncora d’Ouro (também conhecido por Piolho), localizado na Praça de Parada Leitão, mais concretamente, na Rua Latino Coelho, desde a sua fundação até aos dias de hoje, uma vez que, felizmente, ainda se encontra activo – é conhecido como o café dos estudantes. Inúmeras placas de mármore, colocadas pelos cursos médicos, na altura da Queima das Fitas, nas paredes do estabelecimento, desde 1947 para cá, atestam esta realidade. Como nos informa Horácio Marçal, desconhecem-se os proprietários de fundação do café. Sabe-se sim que, em 1909, o estabelecimento foi trespassado a Francisco José de Lima, antigo empregado de mesa do Café Martinho. Manteve-se, ulteriormente, na posse da família Reis Lima, mais concretamente, na do filho de Francisco Lima. Em 1979, José Martins, José Pires e Edgar Gonçalves, tomaram posse do estabelecimento, permanecendo seus proprietários até hoje. A família Reis Lima, antigos proprietários, vivia por cima, ocupando os dois edifícios, no 2.º e 3.º andares. Numa sala do 1.º andar chegaram a funcionar um salão de chá, para as meninas da Universidade, e um salão de bilhares .café ancora d'ouro A

Existem duas teorias para o epíteto de Piolho que é dado a este café: a primeira diz respeito à prolífera aglomeração de estudantes que, desde sempre, se foram concentrando no espaço interior de tão reduzidas dimensões este estabelecimento. A segunda indica-nos que “os piolhos que deram nome à casa eram, na verdade, a arraia-miúda que desaguava no café logo pela matina.  Leiteiras, padeiras e carniceiras vinham com uma caneca de alumínio tomar lá café com leite. Talvez por esta razão os estudantes começassem a chamar àquele espaço uma piolheira. Este café foi o primeiro do Porto a ter electricidade, “novidade tecnológica que orgulhosamente exibia num conjunto de 12 lâmpadas à volta de uma coluna no meio da sala e que ainda hoje lá se encontram”. Outra inovação associada a este estabelecimento diz respeito ao facto de ter sido o primeiro da cidade a adquirir uma “famosa máquina La Cimbali, que deu nome ao cimbalino […]”

Fonte: UPORTO ALUMNI. Porto, Revista dos Antigos Estudantes da Universidade do Porto, série II, n.º8, Julho de 2009.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe salientar que em pleno período opressivo do Estado Novo, dentro do Âncora d’Ouro “teorizava-se, discutiase, transgredia-se, em tom baixinho e num soslaio experiente”. Ou seja, foi este um espaço assíduo de contestação ao regime político vigente na época do fascismo. Este valor para a história também se deve à frequência assídua, a par com a estudantada da Universidade do Porto, de inúmeras personalidades da política, da literatura, do cinema, da música, das artes, entre outras, que por este estabelecimento deambularam.

Ainda dentro deste estabelecimento existia um quiosque.  Hoje limita-se a laborar ao nível do piso térreo, desfrutando de grande prestígio, “por ali se reunir a classe médica e a irrequieta estudantina universitária”.

Café Progresso

café ProgressoO Café Progresso abriu portas no dia 24 de Setembro, Travessa de Sá Noronha, em 1899, orgulhando-se, desde a sua fundação e até hoje – já que, também este café ainda se encontra activo e de boa saúde na actualidade, apesar, claro, das profundas acções de requalificação sofridas, que lhe alteraram a traça original – de servir a melhor e mais saborosa bebida do Porto.

cafe-progresso (1)Desconhece-se o proprietário de fundação. Em 22 de Junho de 1921 é constituída a sociedade por quotas Almeida e Henriques Limitada, que passa a ser proprietária do estabelecimento. Em 7 de novembro do mesmo ano o café é trespassado à Sociedade Comercial União Limitada. A 8 de Janeiro de 1927 realiza-se um novo trespasse e Francisco Henriques Bernardino passa a ser o proprietário do café. Em 4 de março de 1947 Mário Henriques Pinto assumiu a propriedade do estabelecimento, cedida por Francisco Bernardino. O dia 4 de Fevereiro de 2003 fica marcado por nova venda do estabelecimento, desta vez, à sociedade por quotas Mais Progresso – Cafés, Lda., que se mantém até hoje. in http://www.cafeprogresso.net/

cafe-progressoEste café ficou conhecido pelo Café dos Professores, atendendo à grande quantidade de profissionais desta área que, ao longo do século XX, ali se reuniam diariamente. O prestígio deste estabelecimento também foi reconhecido pelo facto de “servir a melhor e a mais saborosa bebida do Porto. Era afamado, portanto, pela grande qualidade do seu café nomeadamente o de saco.

Ao longo do século XX são dignos de referência neste núcleo urbano de cafés do
Carmo e suas imediações o Café Chaves no Chalet da Cordoaria e o Café Vitória.

Café Chaves

Café Chaves 11O Café Chaves no Chalet da Cordoaria foi fruto da transferência de instalações que o proprietário do Café Chaves na Praça de D. Pedro teve de executar, em 24 de Dezembro de 1917, por motivos relacionados com a abertura da Avenida dos Aliados, que obrigou à demolição do edifício onde este se localizava, e cujo proprietário era José Duarte Chaves. O Café Chaves no Chalet da Cordoaria adaptou-se, neste período, à tipologia do café-concerto. Era um estabelecimento pequeno, muito simples e austero, com espaço de mesas para o consumo da bebida negra e outro, com um pequeno palco, para concertos ao vivo. Em pleno verão, era possível tomar café ao ar livre, em mesas que eram colocadas por baixo dos arvoredos.Durante o seu período de laboração no Chalet da Cordoaria, o Café Chaves adaptou-se à nova tipologia de café concerto que, no trânsito do século XIX para o século XX, marcou alguns dos cafés da cidade.

Café Chaves (1)Muitos foram os concertos musicais realizados neste Chalet, ao longo das primeiras duas décadas do século XX, sempre assistidos por notáveis personalidades da literatura, da política e das artes da cidade do Porto daquela época. Todavia, acaba por encerrar as suas portas em 1949, face às reformulações urbanísticas ocorridas no espaço urbano do Jardim da Cordoaria, que obrigaram à demolição daquele requintadíssimo Chalet.

Novamente por motivações de remodelação urbana, desta feita no Jardim da Cordoaria, José Duarte Chaves vê-se, pela segunda vez consecutiva, obrigado a encerrar o seu café, devido à demolição do Chalet, ocorrida em 1949. E desta vez foi por definitivo.Café Chaves Jardim da Cordoaria visto da Torre dos Clérigos

Para a história fica a memória deste prestigiado Chalet da Cordoaria, que em finais do século XIX e ao longo das primeiras décadas da centúria de novecentos, muito contribuiu para que as noites nesta artéria urbana da cidade se tivessem notabilizado por momentos diários de animação cultural. Também percebemos que, ao longo das suas cerca de sete décadas de actividade, este Chalet albergou muitos artistas performativos e músicos de algum prestígio, que aqui se notabilizaram e se encontram actualmente desconhecidos, como por exemplo, o artista Mr. Ilderick Orloff.

Outro estabelecimento que, durante os anos 30 do século XX, também se adaptou às características de café-concerto foi o Café Vitória. Café VitóriaAberto ao público em 1930 e localizado na Praça Guilherme Gomes Fernandes (outrora Praça Santa Teresa). Estabelecimento da tipologia do café-concerto, com um piso térreo, com um espaço de mesas, para o consumo de café e outras bebidas, e outro para a prática de concertos musicais. Neste café predominaram os “tangos, fados e espectáculos de guitarra portuguesa”. Tinha uma frequência muito heterogénea de pessoas. Todas as classes sociais frequentavam este espaço.Acaba por encerrar as suas portas em meados do século.

Cafés da Avenida e suas imediações

De regresso à Praça de D. Pedro vamos encontrar, a norte da mesma, com a abertura da Avenida dos Aliados no ano de 1916, o núcleo urbano de cafés da Avenida e suas imediações. Neste novo espaço urbano da cidade irão notabilizar-se, ao longo do século XX, seis cafés: Avenida, Sport, Monumental, Guarany, Central (o da Avenida) e Imperial. Luxuosos e grandiosos, todos estes cafés seguirão na linha tipológica dos cafés-concerto, já que, todos eles irão possuir orquestra com música ao vivo diariamente. Os salões privados para a prática do jogo – com especial relevo para o bilhar – também estarão presentes em todos eles. Os pioneiros serão o Café Avenida e o Café Sport, do lado oriental da Avenida dos Aliados. Do lado ocidental serão ulteriormente inaugurados o Café Monumental e o Café Guarany. Mais tarde, e novamente a nascente, funda-se o segundo Café Central (o da Avenida), já que, décadas antes – e como já anteriormente foi referenciado, quando abordamos o núcleo urbano de cafés da Praça e suas imediações –, existiu um primeiro estabelecimento com o mesmo nome, também do lado nascente, mas mais a sul da Avenida (precisamente na Praça de D. Pedro), que encerrou, dando lugar à construção de um novo edifício que veio a
albergar as instalações do Café Imperial.

Café Avenida

café avenidaO Café Avenida é inaugurado, em finais da década de vinte da centúria de novecentos, no quarteirão delimitado pelas ruas Sampaio Bruno e Elísio de Melo.  Os espectáculos com orquestra ao vivo eram uma constante. Em 1940 sofre obras de remodelação e reabre com a designação de Vitória- Café-Restaurante-Cervejaria. Este estabelecimento foi um dos mais antigos cafés desta nova artéria urbana, publicitando exaustivamente o seu salão de bilhares e a qualidade do seu café. Durante os anos trinta do século XX, eram aqui organizados espectáculos com orquestra. Aqui actuaram os “guitarristas António Antunes e Marcírio Ferreira que, quando actuavam, […] faziam a assistência encharcar os lenços com lágrimas de vibração, segundo Hélder Pacheco na sua obra “Intimidades Portuenses”. Não resistiu à passagem da primeira para a segunda metade do século XX.

Café Sport

Igualmente localizado entre as ruas Sampaio Bruno e Elísio de Melo surge, em 23 de Novembro de 1929, o Café Sport.café sport Segundo Marina Dias, “assume estilo moderno, com projecto da dupla Rogério de Azevedo-Baltazar de Castro e do pintor decorador António Costa, que em quatro painéis representa quatro modalidades desportivas: o futebol, a natação, o atletismo e o golfe”. Os jornais da época classificavam o Café Sport como sendo um estabelecimento modernista, estranho e bizarro. Os seus proprietários pretendiam, acima de tudo, atrair uma clientela nova, ligada ao desporto, que, a partir desta altura, começa a gerar uma importante classe de ídolos. Porém, Leonardo Coimbra e Teixeira Rego serão seus frequentadores habituais. Em 1943 será totalmente remodelado e acaba os seus dias em finais dos anos sessenta dando lugar a uma dependência bancária.

Café Monumental

Em 10 de Janeiro de 1930 abre o Café Monumental,café monumental com projecto de João Queiroz. Este café subdividia-se em três secções: “na cave situava-se o bar, ao nível da rua funcionava o café (com o indispensável palco para a orquestra) e no primeiro andar instalava-se uma sala com vinte e quatro bilhares”. Em questões decorativas, proliferavam os espelhos. Uma das curiosidades neste café foi a uma novidade técnica para a época,  o secador de mãos, que era anunciado: “mãos que se limpam sem toalhas, assim como um “sistema sonoro com um aparelho Klingsor e altifalantes, que permitiam a audição da música nos três pisos.

Mas a música ao vivo também foi, aqui, uma constante: duas orquestras de jazz e música clássica animavam o café durante a tarde e também à noite. Diversos anúncios eram expostos no estabelecimento e espalhados pela cidade, publicitando os quintetos de música jazz e clássica que ali actuavam permanentemente.
António Soares Correia, exímio executante de violino e o quarteto Vieira Pinto
(um violoncelista de seu nome Antunes e pianista D. Olímpia) por diversas vezes proporcionaram espectáculos de música de salão ao agrado da época. Apesar de luxuoso e verdadeiramente monumental, não chegou a passar da primeira metade do século XX.

Café Guarany

Com projecto do arquitecto Rogério de Azevedo e relevos em mármore de Henrique Moreira inaugurou-se, a 29 de Janeiro de 1933, o Café Guarany. Como no século XX, o Brasil era o principal produtor de café a nível mundial, e Guarany é o nome das tribos indígenas que predominavam na região sul do Brasil e também no Paraguay e Uruguay, este café recebe o nome de Guarany, em alusão a este Brasil, do café e dos índios.

Café Guarany-1933

Café Guarany – História

Possuía, desde a sua fundação, um estrado destinado a orquestra permanente. Nos anos 80 sofreu remodelações no sentido de ser adaptado ao serviço de refeições ligeiras. Mais recentemente foi-lhe reformulada a traça original, tendo sido aproveitados e recuperados “os candeeiros e outros elementos originais e mantido o baixo-relevo em mármore de Henrique Moreira, que representa um índio Guarany”.Café Guarany-Orquestra-Portuense-1933_Guarany-Orchestra-Portuense-1933 É o único café deste espaço urbano da cidade que permaneceu até hoje e continua ainda activo, de acordo com as suas funções originais, manifestando-se, actualmente, como um dos mais importantes da cidade.

Café Guaraby 2012 Entrada_Entrance

Café Central

Após o encerramento, no ano de 1933, do Café Central da Praça, um novo Café Central (o da Avenida) é inaugurado mais para norte, entre as ruas de Sampaio Bruno e Elísio de Melo, mesmo junto ao Café Sport. Café Central 1Era “um café estreito e comprido, possuindo um quiosque à esquerda e um balcão ao fundo”. No quiosque do estabelecimento, para além de se vender tabaco e jornais, o mesmo também servia de caixa de correio e ponto de recados. Deste quiosque, os empregados comunicavam com o balcão recorrendo à mímica, através da associação de cada produto solicitado com o gesto correspondente.
Local assíduo de muitos bancários e outros funcionários, assim como de Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, José Régio, Adolfo Casais Monteiro, acaba, no entanto, por encerrar, nos finais dos anos sessenta, pouco depois do Café Sport.

Café Imperial

Com projecto dos arquitectos Ernesto Korrodi e seu filho Ernesto Camilo abre, em 27 de maio de 1936, o último café deste núcleo urbano da cidade, o Café Imperial.café imperial
Ornamentado com grandes vitrais, candeeiros e muito requinte, este café foi, ao longo da segunda metade do século XX, um dos mais luxuosos da cidade. Informa-nos Marina Dias que “Óscar Lopes e seu pai Armando Leça, João Gaspar Simões e muitos outros” foram seus frequentadores habituais. Em Novembro de 1995, o café dará lugar a um franchising da McDonald’s, que veio alterar o essencial da fachada e interiores do estabelecimento.

Na entrada do café encontra-se, ainda hoje, uma majestosa e deslumbrante águia em bronze, da autoria de Henrique Moreira, que tutelava uma porta giratória, ao gosto da Exposição Colonial Portuguesa, que tinha ocorrido na cidade do Porto, dois anos antes. No salão interior, que ainda se mantém, destacam-se de imediato, por cima do balcão central, os grandes e magníficos vitrais Arte Deco, da autoria de Ricardo Leone, onde são perceptíveis, do lado esquerdo, o retrato de um casal elegante a proceder ao seu ritual de consumo de café, e do lado direito, uma alusão ao cultivo, transporte, transformação e consumo do café.mcdonalds-imperial-café 

Mário Cláudio traça-nos uma descrição muito interessante sobre estes vitrais:

“[…] E, maravilhoso como nada que se lhe comparasse, assombrava-me o gigantesco painel de vidro martelado do Imperial, figurando um par ilustre, de tão esguio, agudo de ombros e de gestos, a paulatinamente saborear o seu café, inserido num quadro de delicioso tropicalismo, enquanto rebentavam os desgraçados dos indígenas, no carreto de sacos e sacos do precioso pó de beberragem, […] 

Café Imperial6As paredes são guarnecidas com grandes espelhos e, por cima destes, encontra-se um friso com painéis de estuque, onde são representados motivos de dança, em baixo-relevo, da autoria de Henrique Moreira e que outrora detinham uma cor prateado, encontrando-se actualmente revestidos a dourado. No tecto destacam-se os quatro grandiosos e majestosos candeeiros em cristal  que atribuem um ambiente de grande requinte ao espaço.

É curioso saber que, em pleno período de contestação antiditadura, era no interior do Café Imperial que os manifestantes se protegiam da polícia, que era barrada pela porta giratória do café.Café Imperial4 A fachada ainda se conserva, mas a porta giratória não sobreviveu e o mesmo acontece no interior do estabelecimento que, apesar de ainda se encontrar com a estrutura formal original, foi, todavia, muito alterado, com as intervenções de remodelação e adaptação às funções de restaurante, ocorridas entre 1990 e 1995, abrindo ao público no dia 9 de novembro deste último ano e permanecendo assim até hoje. Da traça original sobreviveram, somente, os elementos decorativos (a Águia Imperial, os frisos com os painéis de baixos-relevos e os magníficos vitrais Arte Deco).
Poder-se-á dizer que foi preferível este fim para o Imperial, atendendo ao destino mais gravoso de todos os seus congéneres, que foram totalmente substituídos por agências bancárias. Todavia, talvez fosse desnecessária toda a descaracterização formal que o Imperial sofreu, para se adaptar às suas actuais funções.

Cafés nas Ruas Santa Catarina e Sá da Bandeira e suas imediações

A oriente da Avenida dos Aliados encontrava-se o núcleo urbano de cafés nas imediações das ruas de Sá da Bandeira e Santa Catarina. Neste espaço urbano da cidade notabilizar-se-á, ao longo do século XIX, o

Café Lisbonense

LisbonenseFundado no terceiro quartel da centúria de oitocentos por João Bento Teixeira “num troço da Rua do Bonjardim, muito próximo do gaveto com a de Santo António (local que hoje integra a Rua de Sá da Bandeira), este estabelecimento foi “uma das mais bem cotadas casas de café do Porto”. Começou por pertencer a João Bento Teixeira e, mais tarde, passou para a gerência de José Fernandes Nogueira. O café ocupava dois edifícios e o interior “dividia-se em dois salões: um para a frente (onde se tomava o café) e outro para trás (onde se jogava o bilhar)”. Uma orquestra de grande qualidade localizava-se no espaço onde se tomava o café e animava, durante a estação de inverno, os seus clientes. lisbonense 1Ao domingo, existiam as matinés, que se realizavam pelas 14 horas da tarde, começando por tocar os principais artistas a solo, que interpretavam, em piano, os “transcendentes nocturnos de Chopin e as belas sonatas de Beethoven”, em violino, “os arrebatadores trechos de Paganini e Sarasate” e em violoncelo, “os majestosos caprichos fantasias de Dunkler”. À noite era costume serem executados 10 números, onde figuravam selecções de óperas, sinfonias, zarzuelas, entre outros. Era frequentado por literatos, jornalistas, estudantes, entre muitos outros.

Foi no interior deste estabelecimento que se desenvolveu a corrente literária do Realismo, de tendência positivista, por intermédio de personalidades como Basílio Teles, Júlio de Matos e Sampaio Bruno. Já em finais do século XIX, e no âmbito de uma época histórica em que o hábito da escrita se tornou uma obsessão para grande parte dos intelectuais, tendo-se publicado imensos periódicos, ocorreu um episódio deveras caricato nas instalações deste café, que personifica bem o espírito da época. Trata-se da circulação de um periódico, intitulado Gazeta do Realismo: Órgão da última boémia, onde se podia ler que os autores, por dificuldades financeiras, tinham decidido editar o jornal no próprio Café Lisbonense. Neste sentido, e atendendo ao conteúdo algo ofensivo dos artigos que formalizaram esta gazeta, os autores resolveram utilizar como pseudónimos, os nomes de escritores franceses prestigiados.lisbonense 2
Assim sendo, Sampaio Bruno era A. Dandet, Joaquim Araújo era C. Mendes Francisco Carrelhas era Émile Zola, José da Luz Braga era E. Fey Deau e Gaspar de Lemos era Gustave Flaubert. Facilmente se percebe que o jornal foi imediatamente apreendido, tendo-se ficado pelo primeiro número de lançamento. Acaba por encerrar no primeiro quartel do século XX.

Já em pleno século XX distinguir-se-ão neste núcleo urbano seis cafés: Brasileira, Au Chantecler, Excelsior, Majestic, Palladium, e Rialto.

Café A Brasileira

Em 1903 abriu o Café A Brasileira. A brasileira 1940Adriano Telles, afamado farmacêutico portuense de finais do século XIX, resolve, ainda jovem, procurar a sua sorte, emigrando para Minas Gerais no Brasil, onde se dedicará ao negócio do café. Após alguns anos de trabalho árduo e profícuo, acaba por enriquecer e regressar ao Porto onde irá abrir, a 4 de maio de 1903, no número 71 da Rua de Sá da Bandeira e em sociedade com Cândido Alves e Félix de Melo – que
prefiguraram a firma A. Telles e C.ª –, o Café A Brasileira. Começou por ser uma pequena loja onde se servia e bebia café. Todavia, face à grande publicidade propagandista que o seu proprietário executou – com grande slogan espalhado pela cidade, onde se podia ler O Melhor Café é o da Brasileira – e que se tornou bastante eficiente, o estabelecimento passou a dividir-se em dois compartimentos: um para o café propriamente dito e outro para a loja de vendas. Para isso, foram comprados vários prédios entre as ruas de Sá da Bandeira e Bonjardim. No frontispício do restaurante encontram-se esculpidos, de cada lado da entrada, dois escudos em bronze, colocados à frente de duas folhas de palma, em que figuram, do lado esquerdo, as armas do Brasil e o nome da empresa (Telles & C.ª), e do lado direito, as quinas de Portugal e a data de inauguração (4-5-1903). Na parede exterior da cafetaria, encontramos um painel cerâmico policromado, da autoria de Cecília de Sousa. Já após as obras de remodelação e ampliação de finais da década de trinta, começam a ser frequentadores habituais da remodelada e alargada sala principal, adeptos aferroados das ideologias democráticas de oposição ao regime.Café A-Brasileira-no-Porto-1916.2_thu Foi à volta das mesas deste luxuoso salão que se desenvolveu a “implantação portuense do MUD (Movimento da Unidade Democrática – conhecida força legal de oposição, pela esquerda, nascida após a ditadura)”. Por aqui deambularam, nesta época de meados dos anos quarenta, Virgínia Moura, António Lobão Vidal e os advogados Orlando Juncal e Carlos Cal Brandão. Com obras de remodelação profundas, reabre em 1938, conforme o conhecemos na actualidade. Em 2003, após algumas obras de recuperação, tendo sido a sua vasta área interior dividida em três unidades: um restaurante luxuoso (no antigo salão central), uma cafetaria (na antiga sala da direita) e um café da multinacional Caffè di Roma (na antiga sala da esquerda, tendo sido uma parte do salão principal anexada). A área da esquerda, onde se instalou e ainda permanece actualmente o Caffè di Roma, é o único espaço do estabelecimento que, ainda hoje, conserva a decoração interior das obras de remodelação e ampliação de 1916. Neste ano de 2018 foi transformado em um hotel de luxo.

Café Au Chantecler

O Café Au Chantecler foi inaugurado por Mariano Suez, a 12 de Maio de 1915, no n.º 132 da Rua do Bonjardim. café Au Chantecler 1Foi considerado um dos melhores do seu tempo, atendendo às condições de comodidade e conforto de que era detentor. Possuía um palco para espectáculos musicais, ajustando-se à tipologia dos cafés-concerto. café Au Chantecler2Neste estabelecimento exibiram-se, com êxito, “as capitosas cançonetistas Luísa Salmeron e E. Alonso, a escultural bailarina La Madrilenita e a orquestra de Raúl Figueiredo.

Café Excelsior

A 1 de Janeiro de 1920 abriu portas, no troço da Rua de Sá da Bandeira que substituiu a do Bonjardim (entre as ruas de Santo António e Sampaio Bruno), o Café Excelsior. Café Excelsior BEra constituído por duas salas. Este café era uma espécie de sindicato do Comércio, da Indústria e da Agricultura. Negócios de compra e venda de vinhos e aguardente eram tratados ali à mesa do café. Todos os negociantes das províncias aqui se encontravam. Segundo nos informa Maria Costa, “a sala do fundo sofreu grandes obras e […] foi inaugurada em 1928”. Café Excelsior AEsta sala era o local de encontro de muitos intelectuais da época, tais como, o pintor Júlio Reis Pereira e o filósofo Leonardo Coimbra, entre muitos outros. A sala da frente era frequentada, sobretudo, por desportistas. Encerrou as suas portas a 1 de Dezembro de 1959, cedendo o lugar a uma das várias secções do Banco Pinto de Magalhães. Actualmente, o edifício serve as instalações da Loja de Belas-Artes M. Sousa Ribeiro.

Café Majestic

Café Majestic-Fachada_FacadeO Café Majestic – (Café Majestic – História) considerado, actualmente, imóvel de interesse público – é um dos mais luxuosos e requintados cafés do Porto que, felizmente, ainda se conserva activo entre nós, recheado de grandes espelhos, candeeiros, madeiras trabalhadas, tudo ao gosto Arte Nova. Café Majestic     Café Majestica Salão_Salon

Inaugurado em 17 de Dezembro de 1921 com risco do arquitecto João Queirós e com o nome primitivo de Café Elite, o Majestic passou a ser designado pelo nome que ostenta na actualidade a 31 de Julho de 1922, tendo sido, ao longo dos anos, o local eleito de artistas e estudantes das Belas-Artes do Porto, tal como filósofos e outras personalidades – Júlio Resende e Leonardo Coimbra foram seus frequentadores habituais. É actualmente, a par com o Brasileira e o Guarany, um dos mais importantes cafés portuenses.

Café Palladium

A 4 de Novembro de 1940 foi inaugurado o Café Palladium,  na esquina das ruas de Santa Catarina e Passos Manuel, no antigo edifício dos Armazéns Nascimento, projectado pelo arquitecto Marques da Silva. Tal como o Excelsior e o Monumental, também os proprietários do “Café Palladium o anunciaram como o maior da Península”. Tinha uma decoração de grande luxo e requinte, ao gosto Arte Deco.

CAFÉ PALLADIUM . ENTRADA   CAFÉ PALLADIUM - INTERIOR - 1940

Como nos informa Maria Costa, “ocupava três pisos ligados por escadarias, tendo sido o primeiro edifício a utilizar estrutura de betão armado”. Teve como principais frequentadores, muitos intelectuais da época e comerciantes abastados da cidade do Porto. CAFÉ PALLADIUM - PERSONLIDADES 1941 Na foto (de 1941) pode ver-se, da esquerda para a direita: João Alves, Sant’Ana Dionísio, Carlos Sanches, José Régio, Jorge de Sena, Alfredo Pereira Gomes, Adolfo Casais Monteiro e Alberto Serpa.
Encerrou em 1974.
Passou a Galerias Palladium onde se vende vestuário e artigos de som, fotografia, cinema, livros e electrónica. Acabou por encerrar em finais da década de setenta.

Café Rialto

Neste espaço urbano da cidade notabilizou-se, ainda, o Café Rialto. Aberto na Praça de D. João I, na década de quarenta, no edifício mais alto de Portugal em 1944!

rialtoCafé Rialto Porto-Desaparecido.pg

“ O novo café representa um magnífico empreendimento, não só pelas suas amplas e modernas instalações, mas também pelas suas características artísticas. É constituído por dois pavimentos ligados por uma imponente escadaria a mármore, em que a luz natural, conjugada com a colocação de espelhos, lhe dá um ambiente alegre e acolhedor. No pavimento superior avulta um desenho-mural a carvão, da autoria do sr. dr. Abel Salazar, CAFÉ RIALTO - CARVÃO DE ABEL SALAZARem que, a traço vigoroso, está simbolizado o esfôrço da Humanidade através da História. Junto à escadaria, vê-se um baixo relêvo – cerâmica policromada do escultor João Fragoso, que historia, por assim dizer, o Douro , da sua nascente à foz. Este artista assina também outro baixo-relevo, que tem por motivo o café. No salão inferior, vêem-se três pinturas murais, a fresco: a central, da autoria do pintor Guilherme Camarinha , e as laterais, do mestre da Escola de Belas Artes desta cidade, sr. Dordio Gomes. Ao lado, no salão de chá, chamam a atenção do visitante quatro paineis pintados em contraplacado, igualmente da autoria de Guilherme Camarinha, tendo por motivo as quatro estações do ano. Os dois salões – ligados por uma e mesma harmonia de conjunto, a que um enorme painel formado por 44 espelhos, com 72 metros quadrados, dá unidade visual – estão apetrechados com luz indirecta e instalação sonora, dividida. A imponência deste estabelecimento é aumentada por mármores de Leiria, de ricas e raras tonalidades. O «café», com ar condicionado, tem capacidade para 130 mesas e a cozinha, completamente electrificada, possue, e pela primeira vez em Portugal, aparelhagem para esterilização de chávenas, capaz de esterilizar 600 em quinze minutos. Cada salão possue o seu balcão-frigorífico privativo, ligado por um elevador. 

O Século – 28/11/1944. café rialto mural

Este café foi frequentado por várias personalidades da cultura, da literatura e da arte daquela época. Nas décadas de cinquenta e sessenta destacam-se Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e José Augusto Seabra.  No Café Rialto, Egito Gonçalves reunia-se com os restantes membros do grupo que editava o Notícias do Bloqueio, em longas discussões contra o poder vigente e a solidariedade ambicionada, “todos representativos de uma postura de aberta oposição à ditadura, a  maioria próxima, alguns até militantes, do PCP.

Na altura em que o café encerrou, Julho de 1972, a instituição bancária que lá se instalou reservou o mural de Abel Salazar, que ainda lá existe, mas destruiu os frescos e o baixo-relevo de Dordio Gomes, Guilherme Camarinha e António Duarte.

Embaixador, Ceuta e Aviz

Os cafés abertos no período posterior à Segunda Guerra Mundial já não patenteiam da grandeza e requinte decorativo dos fundados anteriormente,
evidenciando-se pela austeridade de ornamentação. Esta realidade estendeu-se a todos os estabelecimentos dos cinco núcleos urbanos de cafés do Porto enunciados.

café embaixador

 Os principais exemplares desta nova tipologia – dignos de referência e ainda activos na actualidade – são o Café Embaixador, fundado em 1959 e localizado no núcleo urbano de cafés da Praça, mais concretamente, na Rua de Sampaio Bruno, funcionando actualmente como restaurante.

Decorado num estilo Art Déco , o Café Embaixador apresentava um requinte e grandiosidade ,de inferiores mais discretos , quando comparado com espaços homólogos de décadas anteriores . A diminuição da antepassada ostentação devia-se ,em parte , ao facto de o Embaixador ter nascido num período de pós segunda guerra mundial. Na decoração discreta destacavam-se os painéis em cavan de Martins Dacosta , que adornavam uma parte significativa da parede . O restante espaço era revestido a mármore e espelhos

Café Ceuta, café ceutasito na Rua de Ceuta e aberto ao público a 18 de Julho de 1953.

cafe-aviz-porto

Café Aviz, fundado em 1956, na Rua do Aviz.

Estes dois últimos são, ambos, detentores de salão de bilhares e localizam-se no núcleo urbano de cafés do Carmo e suas imediações.

  • MENDES, Nuno Fernando Ferreira – CAFÉS HISTÓRICOS DO PORTO -NA DEMANDA DE UM PATRIMÓNIO IGNOTO
  • DIAS, Marina Tavares; MARQUES, Mário Morais – Porto Desaparecido
  • COSTA, Maria Teresa Castro – Os Cafés do Porto,
  • Coisas do Porto: O Botequim. Porto, O Tripeiro, série nova, n.º 10, ano XII, Outubro de 1993,
  • MARÇAL, Horácio – Aspecto etnográfico do Comércio Portuense de outrora. Porto, O Tripeiro, série nova, n.º8, ano III, Agosto de 1984,
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