António Nobre

António Pereira Nobre nasceu a 16 de agosto de 1867, na Rua de Santa Catarina, no Porto. Filho de burgueses abastados, estudou em vários colégios da cidade invicta e passava os verões nas casas que a família tinha no campo, na Lixa ou no Seixo (o seu «paraíso perdido», como lhe chamou o maior biógrafo do poeta, Guilherme de Castilho), ou na praia, em Leça, frequentada pela colónia inglesa, onde viria a descobrir o fascínio do mar, o «Prof. Oceano», seu grande mestre da praia da Boa Nova, professor em «aula aberta», e onde conheceria Miss Charlote, jovem perceptora inglesa com quem viria a corresponder-se durante dois anos, e que lhe encurtaria o nome para Anto, que ele tornaria personagem de ficção nos “Males de Anto”, poema que encerra o “Só”. Começou a escrever muito cedo, os seus primeiros poemas datam dos 15 anos de idade. Ruma alguns anos mais tarde a Coimbra, onde cursará Direito. Nesta altura já publicara numerosos poemas em jornais e revistas. Faz parte do grupo da revista “Boémia Nova”, dirigida por Alberto Oliveira. Acaba por ser reprovado no primeiro ano. Durante as férias vai cimentar-se a sua amizade com Alberto Oliveira, tendo ambos partilhado uma casa em Leça.

António Nobre 1
Jardim João Chagas, na Cordoaria. Escultores Correia da Silva e Tomás Costa. Inaugurada em 1927

Nobre convive também com os pescadores, que carinhosamente o tratam por «o Criatura Nova». Regressa a Coimbra e depois da segunda reprovação decide ir fazer a licenciatura para Paris. E é na solidão do seu quarto da rue des Écoles que escreverá muitos dos poemas que integrarão o “Só”, publicado em Paris em 1892, pelo editor dos poetas simbolistas, Léon Vanier. A obra é mal acolhida em Portugal, com excepção de alguns amigos, mas quando o livro é reeditado seis anos depois, as reacções já são mais favoráveis. António NobreHoje faz-se-lhe finalmente justiça e “Só” está entre os livros maiores da literatura portuguesa. “Só” é um retrato do país em fins do séc. XIX, em especial do Norte ( Douro e Minho), feito com grande ironia. Depois de curta estada numa quinta da família, em Penafiel, chega a 17 de Março de 1900 ao Porto, onde morreria no dia seguinte, aos 32 anos, numa casa na Foz. Deixou um grande número de poemas inéditos, que viriam a ser publicados postumamente nos livros “Despedidas”, “Primeiros Versos” e “Alicerces”, e muito mais tarde, a sua correspondência. António Nobre viria a ser reconhecido pelos modernistas e é hoje claro que foi um dos maiores contributos para a renovação da linguagem poética em Portugal.

Guilherme Braga

Nasceu no Porto a 22 de Março de 1845, faleceu na mesma cidade a 26 de Julho de 1874. Tio de Alexandre Braga, filho e amigo de infância de Alberto Pimentel. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, Guilherme Braga foi redator-chefe da “Gazeta Democrática”, tendo-se correspondido com Victor Hugo. Traduziu o “Atala”, de François-René de Chateaubriand, colaborou em diversas revistas e jornais, tais como Giralda, Diário da Tarde, Nacional e Luta.Guilherme Braga

Nos seus versos era violento contra os falsos ministros da religião, entusiasta apaixonado pela liberdade, de grande sensibilidade a ternura ao descrever as alegrias do lar. A sua obra poética mostra, constantemente, o tema obsessivo da morte, pressentida dia-a-dia, expressa de forma tão coloquial que chega a lembrar Cesário Verde. Cultivou, também, a temática social e humanitária, de inspiração “victor-huguana”, e o lirismo amoroso, de tonalidade parnasiana. Nos seus versos, Guilherme Braga era violento contra os falsos ministros da religião, entusiasta apaixonado pela liberdade, de grande sensibilidade e ternura ao descrever as alegrias do lar. Era casado com D. Maria Adelaide Braga, que sucumbiu dois meses depois do falecimento de seu marido. Alberto Pimentel, no livro intitulado Homens a datas, consagra um saudoso artigo biográfico à memória do desditoso poeta portuense, que se finou contando apenas vinte e nove anos de idade, vítima de tuberculose, já depois de ter sofrido a perda de quatro filhos.

Deixou publicado o seguinte: Ecos de Aljubarrota, Porto, 1868; O mal da Delfina, parodia à Delfina do mal, por um homem de bem, Porto, 1869; Heras e violetas, Porto, 1869 ; Os falsos apóstolos, O Bispo; traduziu o Átala de Chateaubriand, colaborou na Giralda, Diário da Tarde, Nacional, Luta, etc.

Alexandre Braga

Alexandre José da Silva Braga (pai), advogado, orador, político, poeta e jornalista português, nasceu no Porto no dia 14 de Março de 1829. Morreu na mesma cidade, em 9 de Maio de 1895.alexandre_braga

Irmão do poeta Guilherme Braga e pai do escritor e tribuno republicano Alexandre Braga (filho), Alexandre Braga (pai) foi filiado no Partido Republicano Português Fez parte da geração romântica da década de 1850, juntamente com Camilo Castelo Branco.
Cursou Direito na Universidade de Coimbra e foi um dos fundadores da revista “O Novo Trovador”. Em 1849, co-fundou também a revista portuense “Lira da Mocidade” e publicou a colectânea de poesias “Vozes de Alma”, representativa do ideário poético da sua geração, revelando influências de Alexandre Herculano, Lamartine e Victor Hugo.
Em 1856, foi igualmente um dos fundadores do jornal político “O Clamor Público”. Nos anos 1850, colaborou também na publicação “O Bardo e A Grinalda”, afastando-se depois da vida literária para se dedicar exclusivamente às suas funções de advogado e de orador.

Raul Brandão

Raul Germano Brandão nasceu a 12 de Março de 1867 no nº 12 da Rua da Bela Vista (actual Rua de Raul Brandão), na Foz do Douro, localidade que marcou de forma indelével a sua vida e obra, pelo mar e pelos seus homens. Era filho de pequenos proprietários.
Raul_Brandao2A infância e a adolescência foram passadas no Porto, onde completou os primeiros estudos, nomeadamente no Colégio São Carlos. Aqui colaborou, em 1885, na publicação da revista escolar O Andaluz, criada “a favor das vítimas dos terramotos da Andaluzia”, e na qual participaram também João de Lemos, José Leite de Vasconcelos e Trindade Coelho.

Seguidamente, frequentou a Academia Politécnica do Porto, entrando então em contacto com outros jovens aspirantes a escritores, entre os quais se contavam os amigos da adolescência, António Nobre e Justino de Montalvão.

O gosto pela literatura, que despontara na juventude, acompanhou-o sempre, mesmo nos anos da Escola do Exército. É em 1896 que o alferes Brandão chega a Guimarães, concelho onde construirá a Casa do Alto, na freguesia de Nespereira, palco da criação de algumas das suas obras mais importantes. O berço da nação serviu também como pano de fundo da história de amor da sua vida: Maria Angelina, com quem se casou um ano depois, ali nascera e crescera.Raul Brandão escreveu para vários jornais e revistas, tendo sido um prolífico escritor de prosa, dentro e fora das páginas dos muitos livros que publicou.

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Foz do Douro | Passeio Alegre | Escultor Henrique Moreira; Arquiteto Rogério dos Santos

Reformado da carreira militar em 1912, fez parte do grupo dos Nefelibatas, encetou a redacção das suas memórias e não terminaria a vida sem deixar também — a meias com a esposa e companheira devotada — uma marca indelével na literatura infantil. Portugal Pequenino, título que deu às aventuras de dois gaiatos pelos céus e terras nacionais, é o retrato do amor pelas coisas simples, sinceras e perenes da humanidade e do seu país, onde sempre será lembrado como um grande homem, antes do epíteto irrefutável de grande escritor.

Arnaldo Gama

Arnaldo de Sousa Dantas da Gama nasceu no dia 1 de Agosto de 1828 no Porto e faleceu no dia 29 de Agosto de 1869 na mesma cidade, depositado o seu corpo no  cemitério da Lapa. arnaldo-gama-00-dez16Formou-se em Direito em Coimbra, dedicando-se desde cedo ao jornalismo e à literatura. Fundou o Jornal do Norte, tendo colaborado, entre outros, em A Península, O Nacional, O Porto e a Carta. Os seus romances tornaram-se populares na época. Fixando-se, do ponto de vista literário, no segundo Romantismo português, foi influenciado pelo escritor francês Eugène Sue e por Camilo Castelo Branco. Dedicou-se sobretudo à escrita de romances de ambiente histórico.

Muitos especialistas consideram-no como o mais portuense dos autores portuenses, por este ter escolhido, a maior parte das vezes, o Porto e arredores como cenário para os seus romances históricos.

Pela sua obra perpassa, em épocas diversificadas, o espírito da cidade e a energia das suas gentes. O autor relata-nos episódios vividos na urbe ou redondezas, desde a Idade Média como, por exemplo, na obra o “Balio de Leça”, ou um episódio da história do Porto, do século XV, com a obra “A última Dona de S. Nicolau”, onde descreveu o drama das mulheres emparedadas. Descreveu também com mestria os movimentos colectivos, como a “revolta dos tanoeiros” contra o poder prepotente do Marquês de Pombal, tratando o tema na obra “Um motim há cem anos”. Da mesma forma romanceada relata a 2.ª invasão francesa, quando o Porto foi tomado pelas tropas comandadas por Soult, na obra “O sargento-mor de Vilar”.

Arnaldo Gama
A guardar a Muralha Fernandina, na Rua Arnaldo Gama, próximo da Sé do Porto.

Os seus romances demonstram uma grande precisão e rigor histórico, com reconstituições muito fidedignas, a nível de linguagem e de ambientes. Este portuense genuíno permanecerá perpetuado na sua discreta estátua de bronze, da autoria de Rogério de Azevedo, colocada à sombra da muralha fernandina, aquela a que tanto se referiu nos seus romances, na esperança que, muitos mais leitores da actualidade e do futuro conheçam as suas obras…

Obras: Génio do Mal (em quatro volumes publicados entre 1856-1857); Poesias e Contos (1857); Verdades e Ficções (1859); Um Motim há Cem Anos (1861); O Sargento-Mor de Vilar (1863); O Segredo do Abade (1864); A Última Dona de S. Nicolau (1864); O Filho do Baldeia (1866); A Caldeira de Pêro Botelho (1866); Honra ou Loucura (1868); O Balio de Leça (1872, ed. póstuma); El-Rei Dinheiro (1876, ed. póstuma).

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, na Rua da Rosa da freguesia dos Mártires, a 16 de Março de 1825, no seio de uma família da aristocracia rural. Camilo_Castelo_Branco_900O segundo filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco (1778-1835), solteiro, e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira (1799-1827), sua criada, foi registado como filho de mãe incógnita, certamente devido às origens humildes da progenitora. Foi baptizado na igreja paroquial dos Mártires, a 14 de Abril de 1825, tendo como padrinhos o Dr. José Camilo Ferreira Botelho, de Vila Real, e Nossa Senhora da Conceição.

Em 1826 a família mudou-se para a Rua da Oliveira da mesma cidade. A 6 de Fevereiro de 1827 e apenas com dois anos de idade, Camilo ficou órfão de mãe, sendo perfilhado pelo pai, juntamente com a sua irmã Carolina, em 1829. Em Lisboa, iniciou os estudos primários, em 1830. Por esta altura, a sua família deslocou-se para Vila Real, onde o pai fora colocado como responsável pelos correios. Os três membros da família regressaram à capital em 1831, após a demissão de Manuel Joaquim por acusação de fraude. Com a morte deste, a 22 de Dezembro de 1835, as duas crianças foram entregues aos cuidados de sua tia paterna, D. Rita Emília da Veiga Castelo Branco. Em 1836 mudaram-se para Vila Real.

Em 1839, quando a sua irmã se casou com Francisco José de Azevedo e foi viver com o marido para casa do irmão deste, o Padre António de Azevedo, na aldeia de Vilarinho de Samardã, Camilo seguiu-os. Neste ambiente rural, que muito viria a influenciar a seu trabalho literário, o clérigo proporcionou-lhe uma educação vocacionada para uma carreira religiosa, na qual não foi descurado o estudo dos clássicos portugueses, assim como conhecimentos primários de latim e francês.
Porém, cedo lhe passou a vocação eclesiástica. A 18 de Agosto de 1841, com apenas dezasseis anos de idade, Camilo casou-se com Joaquina Pereira de França, em São Salvador, e instalou-se em Friúme, em, Ribeira de Pena. Em 1842 foi estudar com o Padre Manuel da Lixa, em Granja Velha, para preparar o ingresso no ensino universitário.

A 25 de Agosto de 1843 nasceu Rosa Pereira de França Castelo Branco, filha de Camilo com Joaquina. Nesse ano, o jovem fixou-se pela primeira vez no Porto, numa casa da Rua Escura, no histórico e pitoresco bairro da Sé. Em Trás-os-Montes deixara a tia Rita, a mulher e uma filha de meses. Em Outubro, matriculou-se no 1º ano de Anatomia da Escola Médico-Cirúrgica e depois em Química, na Academia Politécnica.

busto de camilo na av camilo
Esta obra do escultor Henrique Moreira (1890-1979) foi oferecida à cidade por “O Comércio do Porto” em 1925.

Em 1844 frequentou o primeiro ano do Curso de Medicina e no ano seguinte voltou a inscrever-se na Escola Médica, mas perdeu o ano por faltas, uma vez que era mais assíduo frequentador dos ambientes boémios do que das aulas. Começou então a participar nos abadessados ou outeiros de abadessados (certames poéticos que ocorriam nos pátios conventuais e duravam três dias e três noites, nos quais os poetas glosavam motes dados pelas Monjas, que em troca, ofereciam doces e vinho fino) e publicou as primeiras obras poéticas.
Depois de conseguir tomar posse do que restava da sua herança, voltou a Vila Real. Nesta terra perdeu-se de amores pela prima Patrícia Emília do Carmo Barros. Com ela fugiu para o Porto. Em Outubro de 1846 passou 11 dias na Cadeia da Relação (de 12 a 23 de Outubro), por ter sido acusado de roubar 20 000 cruzados a João Pinto da Cunha, pai de Patrícia e amante da sua tia. Nesse período agitado – vivia-se então a guerra civil da Patuleia – iniciou uma carreira de jornalista e continuou a escrever. Depois de libertado, regressou a Vila Real e manteve a relação com a prima Patrícia Emília. Na sequência da morte da sua esposa, Joaquina Pereira, voltou ao Porto, em 1847. Mas a sua actividade jornalística, que desenvolvia no Nacional e no Periódico dos Pobres, trouxe-lhe malquerenças e perigos inesperados que o obrigaram a refugiar-se, primeiro em Covas do Douro, na casa da irmã, e, seguidamente, na Folgosa. Daí partiu de novo para a capital nortenha em 1848.

Em 1850 passou algum tempo na capital, onde redigiu o seu primeiro romance, Anátema, publicado primeiramente nas páginas do jornal literário A Semana; no ano seguinte, esta obra, que o próprio Camilo afirma ter produzido aos vinte e dois anos e que se pode integrar no tipo de novela enredada e terrífica, foi publicada no Porto. A partir de então, passou a viver do que escrevia. Naquele ano tomou parte na polémica entre Herculano e alguns padres sobre o milagre de Ourique e enamorou-se da escritora Ana Augusta Plácido, noiva de Manuel Pinheiro Alves, embora também se ligasse romanticamente à freira professa já mencionada, que conhecera num abadessado no mosteiro de São Bento de Ave-maria, comemorativo da eleição da abadessa D. Delfina de Andrade. CONVENTO DE S. BENTO DE AVEMARIA - IGREJA E ESCOLAS NA RUA DO LOUREIRONesta fase da sua vida, imbuído de um surpreendente fervor religioso que se julga ter sido inspirado na impressão causada pelo exemplo do Dr. Câmara Sinval, lente da Escola Médica, que, já idoso, tomou ordens tornando-se pregador em S. Filipe de Nery, ponderou seguir uma carreira religiosa. Para tal, matriculou-se nas Aulas de Teologia, Dogmática e Moral, do Seminário Diocesano, ao tempo instalado no Paço Episcopal, e chegou mesmo a requerer ordens menores, em 1852, enquanto fundava dois jornais de carácter religioso: O Cristianismo (1852) e A Cruz (1853). Camilo e Ana Plácido em família. Neste regresso alojou-se no Hotel Francês, da Rua da Fábrica, e passou a frequentar os cafés, os teatros e os bailes da moda. Integrava, então, o grupo dos “Leões”, habitués do café Guichard. Camilo já não era o pobre estudante de outros tempos, mas um homem elegante, reputado jornalista e escritor dedicado aos escritos polémicos e novelísticos. Contudo, a fama também lhe trouxe dissabores e inimizades, sobretudo entre as figuras da elite portuense visadas nas suas obras. Nesse ano morreu-lhe a filha Rosa e nasceu-lhe a filha Bernardina Amélia, fruto da sua relação com Patrícia Emília, criança que foi colocada na Roda dos Expostos, depois temporariamente criada em Samardã e, por fim, entregue à freira Isabel Cândida Vaz Mourão, do portuense convento de São Bento de Ave-Maria, amante de Camilo.

Em 1856 foi nomeado director literário d’ A Verdade. É nessa altura que começa a sentir os primeiros sintomas de falta de visão, tormento que lhe marcaria a vida e provavelmente, lhe precipitaria a morte. Em 1857, instalou-se em Viana do Castelo, onde, trabalhou como redactor do periódico A Aurora do Lima. Mas não estava só. Acompanhava-o Ana Plácido, esposa de Pinheiro Alves, que para aí o seguira, com a desculpa de acompanhar uma irmã. Muito rapidamente, esta ligação amorosa viria a tornar-se pública e notória, vindo a causar grandes problemas a Camilo na sua profissão de jornalista. Que, talvez por esse motivo, sofre uma viragem: no ano seguinte, o escritor estará ligado à publicação do jornal O Mundo Elegante. Ainda em 1858, foi eleito sócio da Academia Real das Ciências, por proposta de Alexandre Herculano, ao qual, apesar da anterior polémica, votava admiração.

Em 1859, Camilo e Ana Plácido partiram para Lisboa. bio_camilo02Mas a vida não estava fácil para os dois amantes que, na prática, eram dois fugitivos, deambulando pelo país e debatendo-se com dificuldades económicas. A 11 de Agosto nasceu Manuel Plácido (1859-1877), filho de ambos, mas que veio a ser registado legalmente como filho de Pinheiro Alves. Em 1860, o marido traído moveu-lhes um processo de adultério que os atirou para a Cadeia da Relação do Porto. Ana Plácido foi presa a 6 de Junho de 1860 e Camilo, que andara fugido no Entre-Douro-e-Minho, entregou-se às autoridades no primeiro dia de Outubro. No cárcere, onde, em abono da verdade, dispunha de algumas comodidades e, sobretudo, não se encontrava exclusivamente confinado a uma cela, Camilo recebeu a visita de D. Pedro V, por duas ocasiões, e escreveu, no prazo record de 15 dias, o seu mais lido e popular romance, Amor de Perdição.

cadeia da relação

Em Outubro de 1861 Ana e Camilo foram julgados e absolvidos por influência do Dr. José Maria Teixeira de Queiroz, pai de Eça, conselheiro do Tribunal, que visitou o escritor várias vezes e o ajudou a preparar a estratégia de defesa neste intrincado processo. Camilo referir-se-á a ele sempre como o “nosso honrado Queiroz” ou o “boníssimo Queiroz”, facto que, no entanto, não o impedirá de entrar em polémica com o filho, anos mais tarde.

Em 1862 o casal foi viver para Lisboa, onde nasceu, em 1863, o seu filho Jorge Camilo Plácido de Castelo-Branco (26 de Junho). Nesse ano sobreveio a morte de Pinheiro Alves e o seu “filho” legal, Manuel Plácido, herdou a casa de São Miguel de Ceide, em Famalicão. Foi para esta casa que em 1864 a família se mudou, e onde nasceria, em 15 de Setembro, o terceiro filho do casal, Nuno Plácido de Castelo-Branco. Jorge veio a sofrer de alcoolismo e Nuno teve comportamentos desregrados na sua juventude. Camilo vivia uma época de intenso labor, escrevendo sem cessar e alcançando notoriedade pública.

Contudo, a residência fixa em Famalicão não afastou Camilo do Porto. Nesta cidade passou várias temporadas, continuando a frequentar livrarias e teatros. Ia a banhos em Leça da Palmeira e na Foz, e, finalmente, formalizou a sua ligação com Ana Plácido, com quem casou, na Invicta, em 9 de Março de 1868. Habitou na Rua de Santa Catarina e não deixou de se deslocar, com a família, a Lisboa (onde o encontramos em 1869) e a Coimbra (onde estava em 1875), sob o pretexto de cuidar da educação dos filhos.
Ana Plácido revelou-se, também, uma fiel companheira de letras. Com ela, Camilo fundou e dirigiu, em 1868, A Gazeta Literária do Porto. Em 1872, recebeu D. Pedro II, imperador do Brasil, na sua casa da Rua de São Lázaro, no Porto, e queimou o romance A Infanta Capelista. Em 1873, viajou entre Braga, Porto, Póvoa de Varzim e Lisboa. Em 1878, pioraram os problemas de visão e foi ferido num acidente de comboio entre São Romão e Ermesinde.

Os anos oitenta foram bastante turbulentos para este volátil personagem. Logo em 1881 participou no rapto de uma órfã para a casar com o seu filho Nuno (1881), com quem mantinha já uma relação difícil e que acabou por expulsar de casa (1882) numa altura em que se agravam ainda mais os seus problemas de visão. Em 1883, leiloou a biblioteca pessoal, em Lisboa, devido a dificuldades financeiras, e entrou em polémica com o lente de Coimbra, Avelino César Calisto (que criticara o que ele escrevera sobre o Marquês de Pombal) e José Maria Rodrigues (que defendera o lente), na chamada Questão da Sebenta, considerando que “golfam dali gorgolões de ignorância, de tartufismo e deslealdade”. Foi mais uma no extenso rol de pelo menos trinta e seis polémicas que se lhe conhecem. Algumas destas discussões redundaram em ameaças à sua integridade física. E, perante a insistência com que lhe eram dirigidas, comprou um revólver para se defender. Irónica e tragicamente, viria a usá-lo sete anos mais tarde para se suicidar. Entretanto, no dia 27 de Junho de 1885, após 15 anos de espera, o Rei conferiu-lhe o título de Visconde de Correia Botelho. Dois anos depois tornou a viajar a fim de tratar do seu problema de saúde, que se agravava cada dia.

Em 1889, por iniciativa de João de Deus, Camilo foi homenageado em Lisboa, no seu dia de anos, por um grupo de intelectuais (artistas, escritores e estudantes). Nesse mesmo ano foi visitado, mais uma vez por D. Pedro II, então ex-imperador do Brasil.

Amor de Perdição
A estátua “Amor de Perdição”, é da autoria do Mestre Francisco Simões, situada no Largo Amor de Perdição (antigo Campo Mártires da Pátria). 2012

No dia 1 de Junho de 1890, depois de uma derradeira consulta num especialista de oftalmologia, o Dr. Edmundo Magalhães Machado, que matou a última réstia de esperança de curar a cegueira, suicidou-se, como já antes havia ameaçado, com um tiro disparado sobre o ouvido direito. Foi sepultado no jazigo do seu amigo Freitas Fortuna, no cemitério da Lapa, no Porto, lugar que previamente escolhera para sua última morada.

(Universidade Digital / Gestão de Informação, 2008)

Universidade do Porto

Júlio Dinis

Joaquim Guilherme Gomes Coelho, mais conhecido pelo pseudónimo Júlio Dinis, nasceu no Porto a 14 de Novembro de 1839 e quatro dias depois foi baptizado na igreja de S. Nicolau da mesma cidade.júlio dinis foto O pai, José Joaquim Gomes Coelho, era natural de Ovar e médico-cirurgião pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Casou no Porto com Ana Constança Potter Pereira, natural desta cidade, embora com ascendência britânica. Tiveram nove filhos. Quando tinha cerca de seis anos de idade, a mãe de Júlio Dinis faleceu com a doença que se iria tornar na mais infeliz herança da família – a tuberculose –, a qual também tirou a vida aos seus oito irmãos e, mais tarde, a si próprio.

Pouco sabemos acerca do período da sua infância e adolescência. Ao que parece, frequentou a escola primária da freguesia de Miragaia. Em 1853, depois de concluir o curso preparatório do Liceu, matriculou-se na Academia Politécnica do Porto. Depois de aí frequentar as cadeiras de química, matemática, física, botânica e zoologia com boas classificações, matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica do Porto no ano letivo de 1856-57.
Foi nesta Escola que, em 1861, defendeu a sua dissertação, intitulada Da Importância dos Estudos Meteorológicos para a Medicina e Especialmente de Suas Aplicações no Ramo Cirúrgico. O facto de ter escolhido este tema deveu-se à sua relação tão próxima com a doença que já tinha tirado a vida à sua mãe e aos seus irmãos. Depois de ter terminado o curso, logo pensou em seguir a carreira de professor, porque considerava a profissão de médico de grande responsabilidade e de alguma desumanidade. Concorreu ao lugar de demonstrador na escola onde se tinha formado, mas só à terceira tentativa é que conseguiu o lugar, em 1865.

A sua carreira foi interrompida por diversas vezes devido à doença de que sofria, que o obrigava a mudar-se para ambientes rurais, como Ovar e Funchal. Foi em Ovar, na sua primeira cura de ares, em 1863, que se apaixonou por um tipo de romance diferente do que tinha vindo a escrever – o romance rural. Até então, as suas obras tinham um carácter lírico, novelístico e de romance citadino.

estátua júlio dinis
Esta obra, da autoria de João Silva, foi inaugurada em Dezembro de 1926. Na base um baixo relevo “A leitura em família”.

As suas principais obras, todas assinadas como Júlio Dinis, são: As Pupilas do Senhor Reitor (1867), A Morgadinha dos Canaviais (1868), Uma Família Inglesa (1868), Serões da Província (1870), Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871), Poesias (1873), Inéditos e Esparsos (1910), Teatro Inédito (1946-47). O único romance citadino é Uma Família Inglesa, baseado na literatura inglesa. As Pupilas do Senhor Reitor e A Morgadinha dos Canaviais foram romances praticamente escritos em Ovar; já os Serões da Província e Os Fidalgos da Casa Mourisca foram redigidos no Funchal. Esta última obra não chegou a ser totalmente revista pelo autor devido à sua morte prematura; um primo seu ajudou-o nesta tarefa e concluiu-a.

Atendendo à época em que Júlio Dinis viveu, seria natural situá-lo no ultra-romantismo. Porém, as suas obras literárias não deverão ser inseridas nesta corrente, já que, devido à influência do pai, médico, e à sua educação científica, Júlio Dinis tinha uma visão bem mais real e verdadeira do que a dos autores ultra-românticos. Mas também não devemos classificar a sua obra na corrente Realismo – Naturalismo que começou com as Conferências do Casino da geração de 70, de Eça de Queirós. Podemos, sim, dizer que ele foi o percursor desta corrente literária no nosso país, o que levou a que fosse apelidado de inaugurador da escola naturalista.

Julio_Dinis _leitura em família
“Leitura em Família”

Joaquim Guilherme Gomes Coelho morreu na madrugada de 12 de Setembro de 1871, na casa de uns primos, na Rua de Costa Cabral. Na sua companhia estava Custódio de Passos, primo e fiel amigo, com quem trocou inúmeras cartas, às quais ainda hoje temos acesso. Já há algum tempo que se encontrava confinado a uma cama, mal conseguindo andar. Morreu, desta forma, aquele que, segundo Eça: “viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve”.
(Texto de Ana Sofia Silva Barroso, 2008)

Universidade do Porto

Ramalho Ortigão

Ramalho Ortigão foi escritor e jornalista. Nasceu no Porto, a 24 de Outubro de 1836, na freguesia de Santo Ildefonso, na Casa de Germalde,  onde foi criado pela avó. Matriculou-se com a idade de catorze anos no curso de Direito da Universidade de Coimbra, não tendo acabado o curso, começando a leccionar francês no colégio dirigido por seu pai, o Colégio da Lapa. Foi professor de Eça de Queirós, com quem escreveu um dos primeiros livros policiais da literatura portuguesa – O Mistério da Estrada de Sintra.

Retrato póstumo de Ramalho Ortigão, pelo neto, o pintor Luís de Ortigão Burnay. Quadro de grande formato, oferecido pelo autor à Biblioteca Pública Municipal do Porto.
Retrato póstumo de Ramalho Ortigão, pelo neto, o pintor Luís de Ortigão Burnay. Quadro de grande formato, oferecido pelo autor à Biblioteca Pública Municipal do Porto.

Com Eça também fundou mais tarde As Farpas. A 6 de Fevereiro de 1866 com Antero de Quental bateu-se em duelo, à espada, no Jardim de Arca d’Água, em Paranhos, Porto, por causa de uma contenda decorrente da Questão Coimbrã. Figura destacada do século XIX, literário e intelectual português, e, em particular, da Geração de 70, foi um ilustre membro do grupo dos “Vencidos da Vida”.

Em 24 de Outubro de 1859 casou com D. Emília Isaura Vilaça de Araújo Vieira, de quem veio a ter três filhos: Vasco, Berta e Maria Feliciana.

Foi no Porto, sua cidade natal, onde Ramalho iniciou a sua carreira literária, mais especificamente nas páginas de O Jornal do Pôrto, colaboração sobre a qual, escreveu algumas linhas desenvolvidas na homenagem a Cruz Coutinho, fundador e director do jornal, por ocasião da sua morte, em 1885. A variedade de temas abordados foi grande, mas destaquemos uma entre muitas críticas de espectáculos: referimo-nos ao seu louvor a Borghi Mamo, uma soprano que cantou no Teatro de S. João do Porto duas óperas em 1865. Depois de se instalar em Lisboa, Ramalho continuou a colaborar com a imprensa portuense. Um dos periódicos do qual se tornou repórter correspondente de Lisboa foi O Progresso do Porto, onde publicou pequenos artigos, com crónicas da capital.

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Obra (pedra de lioz) de Leopoldo de Almeida, foi inaugurada em 21 de Agosto de 1954 no Jardim João Chagas (Cordoaria)

Insatisfeito com a sua situação no Porto, muda-se para Lisboa com a família, obtendo uma vaga para oficial da Academia das Ciências de Lisboa. Ramalho Ortigão tornara-se uma das principais figuras da chamada Geração de 70.

Na sequência do assassínio do Rei, em 1908, escreve D. Carlos o Martirizado. Com a implantação da República, em 1910, pede imediatamente a Teófilo Braga a demissão do cargo de bibliotecário da Real Biblioteca da Ajuda, escrevendo-lhe que se recusava a aderir à República “engrossando assim o abjecto número de percevejos que de um buraco estou vendo nojosamente cobrir o leito da governação”. Saiu em seguida para um exílio voluntário em Paris, onde vai começar a escrever as Últimas Farpas (1911-1914) contra o regime republicano.

Numa época onde os sentimentos nacionalistas eram muito exacerbados por toda a Europa, Ramalho integrou-se plenamente nessa corrente, explorando e amando o seu país como poucos. Fez da sua batalha final a protecção e valorização de todos os monumentos artísticos considerados como testemunhos da grandeza da História do nosso país. Era preciso salvar a “Tradição”, um conjunto de elementos de várias qualidades, constituindo a verdadeira alma da nação, actualmente designado de Património. Para o seu conhecimento percorreu sem descanso muitos caminhos e recantos do país, anotando e registando sistematicamente vocabulários regionais, pormenores, histórias, lendas e episódios pitorescos ou descrevendo lugares, monumentos e paisagens, numa inventariação sistemática registada em cadernos, pequenas folhas e epístolas ainda hoje muito bem representada no referido espólio, em alguns arquivos públicos, em posse de membros da família ou ainda de coleccionadores particulares. No fim do século XIX, Ramalho Ortigão publicou uma importante obra, O Culto da Arte em Portugal, onde desenvolveu um levantamento crítico de vários aspectos relacionados com a defesa e valorização do Património nacional, encarados como testemunhos da História de Portugal e elementos essenciais para a justificação da sua identidade nacional. Segundo ele, para alterar as mentalidades era preciso começar por fomentar a educação do povo, sensibilizando-o para o valor dos seus monumentos e a sua importância na identificação da sociedade onde se integravam, sendo também imprescindível um arrolamento geral dos principais elementos a proteger e a divulgar.

Regressa a Portugal em 1912 e, em 1914 dirige a célebre Carta de um velho a um novo, a João do Amaral, onde saúda o lançamento do movimento de ideias políticas denominado Integralismo Lusitano:

“A orientação mental da mocidade contemporânea comparada à orientação dos rapazes do meu tempo estabelece entre as nossas respectivas cerebrações uma diferença de nível que desloca o eixo do respeito na sociedade em que vivemos obrigando a elite dos velhos a inclinar-se rendidamente à elite dos novos”.

Vítima de cancro, recolheu-se na casa de saúde do Dr. Henrique de Barros, na então Praça do Rio de Janeiro, em Lisboa, vindo a falecer em 27 de Setembro de 1915, na sua casa da Calçada dos Caetanos, na Freguesia da Lapa.

Livro disponível (basta carregar no título) :

“O Culto da Arte em Portugal” de Ramalho Ortigão

 

Adolfo Casais Monteiro (  1908-1972 )

Adolfo Victor Casais Monteiro nasceu no dia 4 de Julho de 1908, na cidade do Porto, freguesia de Massarelos. Filho de Adolfo de Paiva Monteiro e de Victorina de Sousa Casais Monteiro, recebeu uma educação laica que privilegiou os valores da cultura e da intelectualidade, típicos do seu estrato social.
Cinco anos após a implantação da República, Casais Monteiro frequentou, na mesma cidade, o segundo grau do ensino primário no Colégio Almeida Garrett e iniciou os estudos liceais no Liceu Rodrigues de Freitas, ambos no Porto. Em meados dos anos 20, aquando da implantação da ditadura militar, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto para frequentar o curso de Ciências Históricas e Geográficas, acabando por concluir o curso de Ciências Históricas e Filosóficas em 1933.

adolfo_casais_monteiro 1Nos seus tempos de frequência universitária, no Porto, a ação literária de Casais Monteiro começou a destacar-se quando entrou para a direção da revista Águia, o que sucedeu no mesmo ano em que publicou a sua primeira poesia, Confusão (1929). Reforçou, então, os laços de amizade com Leonardo Coimbra, de quem recebeu influência. Neste período, iniciou a sua acção política no movimento Renovação Democrática, na secção redactorial. Ao longo da sua vida, fez valer as suas convicções, tornando-se um opositor ao regime do Estado Novo, implantado em 1933, tendo sido detido por diversas vezes.

Em 1931 entrou para a direcção da revista de análise artística e crítica Presença, onde os seus escritos ganharam notoriedade. Até 1940, dirigiu a revista com Gaspar Simões e José Régio, abandonando-a, por essa altura, por dissensões internas que levariam, pouco depois, ao encerramento da revista. Cursou Ciências Pedagógicas em Coimbra, em 1934, realizou Exame de Estado no Liceu Normal, última fase da sua formação pedagógica, e ingressou no Liceu D. Manuel II (anteriormente, Liceu Rodrigues de Freitas, no Porto) como professor. No mesmo ano, casou com Alice Pereira Gomes, irmã de Soeiro Pereira Gomes, de quem viria a separar-se já depois da sua partida para o Brasil. Adolfo Casais Monteiro, país do absurdoComo aconteceu a muitos intelectuais, opositores ao regime do Estado Novo, Casais Monteiro foi perseguido pelas suas posições políticas, tendo sido afastado compulsivamente do ensino em 1936. Em 1954, viu-se forçado a partir para o exílio, no Brasil.
adolfo_casais_monteiroA sua actividade literária estendeu-se à poesia, ao ensaio, à teorização, ao romance e à crítica. Em 1933, saíram a público as obras Considerações Pessoais (de crítica ensaística) e Correspondência em Família, em colaboração com o poeta brasileiro Ribeiro Couto. Na década de 40, publicou várias obras de cariz essencialmente poético, destacando-se Canto da Nossa Agonia (1942) e Europa (1946).
Em 1945, participou no MUD (Movimento de Unidade Democrática) e no ano seguinte colaborou no semanário Mundo Literário. Durante o mesmo ano, publicou o seu primeiro romance: Adolescentes. Colaborou, igualmente, em diversas revistas e jornais como a Seara Nova, O Diabo, Animatógrafo. Fez crítica não só literária como de outras áreas (cinema e teatro, por exemplo).
Antes de partir para o Brasil, em 1954, em busca da liberdade de acção que não tinha em Portugal, participou na organização de antologias poéticas e em obras de homenagem a autores brasileiros e estrangeiros.Adolfo Casais Monteiro, Europa (1946)

Após ter emigrado, o seu carácter suavizou do ponto de vista do trato pessoal. Dirigiu cursos sobre temas que lhe interessavam, como a literatura, mas também sobre o romance. No entanto, foi na crítica que Casais mais se destacou. Em 1962, fixou-se em Araraquara, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras local, Estado de São Paulo.
Na companhia do filho mas não da esposa de quem, entretanto, se tinha separado, permaneceu activo do ponto de vista da produção literária e da colaboração em periódicos como O Globo, Estado de São Paulo ou Portugal Democrático.

Esteve um semestre em Madison, E.U.A., em substituição de Jorge de Sena, seu amigo, como docente. Sendo maior a sua influência no Brasil, publicou, em 1969, a obra Poesias Completas que contém O Estrangeiro Definitivo, que, por sua vez, consagrou a acção literária do autor. Postumamente, em 1984, foi publicada a sua tese de livre docência, intitulada Estrutura e Autenticidade na Teoria e na Crítica Literárias.

Sem que tivesse voltado a Portugal, veio a falecer devido a problemas cardíacos, na sua residência, próxima da do seu filho, em São Paulo, no dia 24 de Julho de 1972.
(Texto de Luís Manuel Gonçalves Pereira, 2008)

Universidade do Porto

RTP Ensina

Agostinho da Silva ( 1906-1994 )

Alberto Pimentel (1849-1925)

Guerra Junqueiro – 1850-1923

Almeida Garrett (1799-1854):

Alexandre Herculano

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo nasceu em Lisboa, no dia 28 de março de 1810, filho de relativos e funcionários do regime monárquico. A sua infância e a adolescência foram acompanhadas pelas invasões francês, para além do domínio inglês subsequente. França trazia o perfume das ideias liberais, o mesmo que motivou a subversão no ano de 1820, no Campo 24 de Agosto, no Porto. Nesse período, frequentou um colégio católico, tendo uma formação muito clássica, embora nunca fechada para as inovações científicas recém-chegadas.

O palco contextual onde Herculano se via era de grande atribulação e agitação, num conflito marcante e latejante na História de Portugal do século XIX.

Alexandre_Herculano_sentado_num_cesto,_na_sua_quinta_de_Vale_de_Lobos
Alexandre Herculano em Vila Lobos

Com somente 21 anos, sentiu-se encorajado moralmente para participar no levantamento do Quarto Batalhão de Infantaria, em 21 de Agosto de 1831, numa altura em que D. Miguel já era rei de Portugal, de forma absolutista, e contra os ideais de muitos jovens liberais, que fervilhavam em impulsos socialistas, republicanos e cartistas.

Após viver um ano em França, chegando a ser iniciado na maçonaria, alistou-se como soldado, tal como Almeida Garrett, nos Bravos do Mindelo, expedição orientada por D. Pedro IV, na tentativa de derrubar o regime imposto pelo seu irmão Miguel. Assim, integrou o grupo que desembarcou, no dia 8 de Julho desse ano, na praia da Memória, na tentativa de cercar a cidade do Porto. Após a convenção de Évora-Monte, que depôs o rei D. Miguel, D. Pedro IV nomeou Herculano bibliotecário da Biblioteca Municipal do Porto, fundada recentemente com os fundos bispais, ficando até 1836, ano em que discordou do juramento à Constituição de 1822, mantendo-se fiel à Carta. Nesse mesmo ano, foi convidado a dirigir a revista semanária “O Panorama”, apolítica e de cariz científico e artístico, que orientou até 1868, durante trinta e um anos. Aqui, foi redactor principal durante dois anos, e retomou o ofício em 1842, logo após redigir o seu célebre romance histórico “Eurico, o Presbítero” (lançado em 1844). Para além deste percurso, também ajudou a fundar mais um par de publicações, desta feita jornais, sendo eles “O Diário do Governo” (1837), “O País” (1851), e “O Português” (1853, onde cultivava a sua posição política crítica), para além da obra “A Voz do Profeta” (1837, um manifesto poético contra o emergente Setembrismo); e foi director da Real Biblioteca da Ajuda e das Necessidades quase até ao fim da sua vida.

Numa fase em que as dissensões liberais se acentuavam, dividindo os cartistas – fiéis à Carta Constitucional – e setembristas – defensores da supremacia da soberania popular – Herculano manteve-se relativamente cauteloso, e apoiante da Carta. alexandre herculano 1Porém, e perante o cenário da Regeneração, recusou fazer parte desta nova governação, mais condizente com os seus ideais, mas perante uma condução menos positiva de Fontes Pereira de Melo; e preferiu, aos poucos, demarcar-se dos cenários de grande actividade política e literária. Em 1838, seria adepto da nova Constituição, de cariz menos revolucionário e mais moderado. Este foi um ano em que também publicou um dos seus livros de poesias, sendo este “A Harpa do Crente”.

Esteve no Parlamento, eleito pelo círculo do Porto, como deputado do Partido Cartista, embora não se sentisse de feição nestas lides. Aqui, viria a combater os esforços contra a liberdade de imprensa, causa pela qual sempre se bateu, para além de incentivar a prossecução de uma reforma do ensino popular. Eventualmente, viria a recusar um convite para se tornar Inspetor Geral dos Espetáculos, outrora assumido por Almeida Garrett. Entretanto, realizaria uma das principais obras relativamente à história do país, sendo ela lançada em volumes, e designada “História de Portugal” (1846-53).

A valia da sua obra foi, no entanto, incontestada na comunidade científica, que o convidou a incorporar a Academia Real de Ciências de Lisboa, tornando-se sócio efetivo em 1852, e vice-presidente em 1855.

alexandre herculano

Desta, recebeu a incumbência de recolher documentos descuidados e dispersos por vários cartórios conventuais nacionais, em especial no Norte, de importância assinalável, e que começam a conhecer o público em geral em 1856 – os “Portugalie Monumenta Historica”. Preterindo condecorações, deixou-se, somente, ser presidente da câmara de Belém, por dois curtos anos (1854-55), até consolidar um desencantamento que seria de curta duração.
No período conturbado entre 1860-65,  onde surgiam vozes a favor do iberismo, Herculano insurgiu-se, participando na Comissão Central 1º de Dezembro de 1640, de cariz patriótico.

Alexandre Herculano casar-se-ia no dia 1 de maio de 1867, com Mariana Hermínia da Meira, companheira de juventude, com quem viveu na célebre quinta de Vale de Lobos, onde se dedicou à agricultura, e criou o reputado Azeite Herculano. Neste período, voltou-se para dentro, numa fase de maior atenção espiritual, mas sempre a mostrar laivos de um espírito contestatário eterno, nos seus vários opúsculos, que seriam, pouco tempo depois, coligidos e publicados. Para além disso, reforçaria a afeição em relação aos camponeses e à burguesia rural, com quem partilhava ideais, e clamava pelos seus direitos, à imagem dos historiadores franceses a quem tanto se associou. Alexandre Herculano faleceria a 18 de Setembro de 1877, sem filhos, vitimado por uma pneumonia, sem ter conseguido retribuir a visita que o Imperador do Brasil D. Pedro lhe fez à data.

Eça de Queiroz 1845-1900

João Grave

Vasco Lima Couto1923-1980

Sophia de Mello Breyner 

Vasco Graça Moura

Agustina Bessa-Luís

Ilse Losa

Richar Zimmler
Fernando Guimarães
José Valle figueiredo
Viale Moutinho
Mário Cláudio

 

 

 

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